Sobre nós mesmxs, parte I.

Parando pra pensar um pouco sobre a relação que o tipo de som, arte etc, que é abordado nessa bagaça aqui e o circuito no qual essas coisas estão inseridas, as propostas relações indivíduos/grupos e tudo mais: bateu uma instiga de trocar um papo rápido com algumas pessoas que, na minha opinião, podem trazer algo de interessante para o debate. Feito, mandei exatamente as mesmas perguntas pra algumas pessoas (e pretendo mandar exatamente as mesmas perguntas pra outras pessoas) e aos poucos vou publicando as respostas aqui. Se isso vai ocupar 15 minutos do seu tempo ou mudar a cara do underground mundial não é comigo. O troço tá feito, o monstro tá solto e o tiro tá dado.

Começamo com o primeiro cara legal que mandou as respostas, o senhor Shurato; que além de ser lindo baixista da ex fuderosa Nômades (atualmente tô achando a banda beeeem +-) e membro de alguns coletivos de propaganda anarquista é figura carimbadinha nos rolés undergrounds Hellcifenses. O doidão é ou era, sei lá, articulador de alguns rolés, agilizador de coisas pra bandas e tá ai no underground desde antes do Ash descobrir que existia um pokemon que evoluía pra Pikachu. Infelizmente o figura lombra em futebol, mas somos todos human@s afinal. A “entrevista” foi fetia pouca coisa depois do falecimento do Redson (dá pra sacar umas referências de leve) e estranhamente algumas coisas ele respondeu como se falasse diretamente comigo (resposta certa), noutras ele escreve como se falasse com um coletivo. A parada inteira e sem correções tá ai na sequência.

Né linds?

H -O hardcore possui uma ligação muito íntima com ativismo, militância e apoio a diversas causas, contudo não é dificil se virar pros lados e perceber um monte de banda que possui um discurso vazio ou fazendo algo muito distante, até mesmo oposto ao discurso das suas letras algumas vezes: como faz?

Shurato – Tua pergunta é a mesma que eu me faço….A diferença é que vocês fizeram e tão buscando respostas. Eu me fiz, mas não pensei em formular respostas. Uma primeira tijolada, como esta, a gente responde com pensamentos de cimento….de repente a gente constrói algo mais que palavras.

Bitcho, um ponto é que não sei se essa linha com o ativismo é tão clara. Se é, não sei qual seria ela. Esta pode ser uma pergunta: qual é o elo entre hardcore/punkrock ou contracultura com ativismo? Eu nem gosto muito desta palavra e o que ela designa. Remete-me à ideia de juventude calorosa e deliciosamente rebelde. E o problema, pra mim, é que a juventude passa, assim como o ativismo. E me lembro do Discarga e o verso: “Verdadeiro até a morte ou até o fim da adolescência? Vamos ver quantos verões você aguenta”.

Seguindo esta linha de pensamento, não sei se podemos dizer que a maioria das bandas, mas sobre tudo, pessoas de bandas, estão distantes disto. O mundo é esquizofrênico e pode conduzir as pessoas a isso.

Assim como qualquer outro nicho musical o contracultural é e será habitado (para não dizer visitado) por vários tipos de pessoas e bandas, não temos, nem é bom que tenhamos, controle sobre isso. Por sua vez, será difícil ter uma cena coerente, musical e politicamente, pois essa relação política da música é pouco considerada.

Hoje já sou mais tranquilo, política e ideologicamente, pra compreender os limites políticos da cena musical em que vivo, de modo que minha energia de militância (diferente de ativismo) é direcionada para outros espaços de atuação. Hoje me preocupo, muito mais, em ressaltar o quanto a luta e a militância social podem e devem ser reforçadas, cantadas e estimuladas pelo underground. Uma nova sociedade vai demandar de nós uma nova musica, e é com isso que me preocupo. Assim, a carga política das musicas que procuro compor estão nisto, tentar expressar um pouco do mundo que trago em meu coração.

Se na banda que toco, esse trabalho de contágio político e difícil (mas seguimos tentando e realizando mudanças, ainda que tímidas) imaginemos numa cena como um todo!?

Em resumo, não sei como faz, mas como faço é: chamar a atenção pra ser coerente o discurso com algumas posturas, internamente; tentar estimular pra uma maior e melhor organização (em termos políticos, dentro do que se pode fazer em uma cena contracultural). Se hoje não é possível uma organização entre as bandas existentes no Recife (que são muitas) penso que pelo menos algumas pessoas podem ampliar o potencial de mobilização e articulação da cena.

É por ai que tento trilhar e estimular coerência.

H – Muitas bandas, além de todo o envolvimento com a “cena” em geral, tornam-se co-responsáveis pela construção das subjetividades dos indivíduos envolvidos com o underground. Como não tornar o discurso de transformação individual presentes nisso, no underground, uma outra prisão para os próprios pensamentos? Visto que isto é bem corriqueiro.

Shurato – Não é possível ter controle sobre isso. Temos que assumir (nós que fazemos musica) a responsabilidade do que cantamos, mas não temos como saber se as pessoas vão se deixar aprisionar pelo que dizemos. Quando escrevo quero tentar instigar um mote…o que cada pessoa pode ou faz com ele, já foge do meu controle.

Agora, uma questão foda da pergunta é: transformação individual. Enfatizar transformação individual é um risco, pois é possível que algumas bandas acabem por estimular um individualismo contracultural, danoso para o esforço daqueles/as que se preocupam com a construção de uma cultura coletiva, solidária e fraterna. Mas, como disse anteriormente, não queremos nem devemos querer ter controle sobre isso. É um embate ideológico ao qual devemos estar dispostos e trabalhar para deixar bem delineada a diferença entre os discursos que podem contribuir para a inquietação de quem ouve(nossa, modesta e quase ingênua pretensão) e o discurso que cria novos dogmas e aprisionamentos das mentes.

Se ilude quem acha que por ser hardcore a mensagem é positiva.

Sendo direto, uma forma de tentar não criar novas catedrais de certeza é exercitar autocrítica. Colocar-se na humilde posição de quem se avalia e pensa sobre oque tem produzido é uma forma para estimular as pessoas a não ouvirem as musicas que fazemos enquanto verdades, mas enquanto perspectivas ou pautas de reflexão sobre a vida que levamos. 


H – O D.I.Y é, até onde eu sei, uma postura que surge/se desenvolve dentro do  cenário punk, como uma forma de agir para além das estruturas de mercado, e em sua absorção pelo mesmo demônio que bradava combater ultrapassou as fontreiras do nicho no qual surgiu. De uns tempos pra cá, e bota tempo nisso, começa-se a pensar em Do It Together como uma forma de extrapolar o D.I.Y, este é o caminho ou são apenas mais 3 letras para uma camisa cool qualquer?               

Shurato – Boa!!!! O faça você mesmo nós vivemos e temos vivenciado de maneiras diversas. Porém, no “fazermos juntos” reside a problemática e também uma alternativa que pode reconfigurar (se já não reconfigura em alguns lugares)a contracultura. Diferença que precisa ser substancial e não superficial, não é só adotar um novo slogan, podemos até manter o velho, desde que a perspectiva seja de autonomia organizada e coletiva.

Como vocês bem colocaram com as questões anteriores (se não as entendi de modo muito distante das intenções de vocês) nossos problemas são: a) engajamento político da musica  (seja para desvendar a falsa ideia de que hardcore significa estimulo à ação social, seja para fortalece-lo enquanto musica que canta e vive um novo mundo);b)uma predominância do individualismo em detrimento da organização coletiva.             

E é inquietante pq a gente sabe que existe um circuito fuderoso no NE, por exemplo, mas que não se articula, que não faz junto. Em contra partida, bandas e pessoas de outro tipo de cena musical conseguem fazer e garantir uma boa articulação entre os lugares e os grupos. O que falta pra nós, do hardcore/punk?

Primeiro, acabar com certos puritanimos sectarizantes; depois procurar ser mais coerente com os brados de um mundo melhor. Esse mundo não cairá do céu nem será construído pelas expressões artísticas, ainda que elas sejam uma dimensão importante para sua construção. Mas serão mais influente e referencial quanto mais coerentes e organizadas forem tais expressões.

Fazer junto é melhor que fazer só, desde que seja um junto pra fora e não para dentro. O significado destas novas três letrinhas devem ser impressos em nossas camisas e patches, com a tinta das experiências e práticas coletivas organizadas.

Vamos nessa?  (Q porra é essa mermão? Isso aqui é um blog de rock e não uma aula na segunda série córói!)

H -Bem, este aqui é um troço que sai apenas na internet e todos já estamos cansados de ler sobre a relação do mercado de música e rolé underground com ela. Maaaaass: hoje as bandas só mostram seu som na internet, shows são divulgados apenas na internet, shows ocorrem apenas para a internet, coletivos; lojas; zines tudo migra para a internet, internet, internet… todo mundo que é grandinho sabe: ela não está ai para todos e não é essa linda terra livre: yay?

Shurato – É aqui que chegamos ao complemento da resposta anterior. Precisamos refletir sobre o que o passado nos ensinou e que nos serviu quando não tínhamos internet, com vistas a ressignificar os velhos meios refletindo sobre o uso dos novos.

A internet é muito confortável, mas pouco abrangente para alguns aspecto. Se formos juntar, por exemplo, as bandas ativas de nosso underground teremos um numero significativo de pessoas, que conhecem tantas outras. Entretanto, nem todo mundo gosta do som que fazemos. Acabamos alcançado a nós mesmos. Resultado, tamo nos iludindo quando a gente faz a divulgação de um concerto naquele site de relacionamento e um monte de gente clica o botãozinho do “eu vou”.

E pq eu disse que complemento às respostas anteriores? Simplesmente por que precisamos revisitar um passado nem tão distante para pensarmos o presente e planejarmos um futuro possível.  A gente não tem:

Um espaço; uma gráfica; uma rádio comunitária, difusora, pirata, ou o que seja; não temos um estúdio coletivo sustentado por uma organização de bandas, gravando e garantindo ensaio em troca da autosustentação do espaço e de uma cena forte, musical e politicamente; não temos uma organização coletiva que articule os diversos contatos e circuitos que cada banda já traçou, a fim de permitir que a potencialização dos rolés no estado e fora dele. Essas são algumas das coisas.

Para mim isso só é possível junt@s! É trabalhoso, mas a vida é trabalho e se dizemos que acreditamos nisto, então nos edifiquemos a partir deste trabalho.

Olhando para trás, percebi que a banda na qual toco já foi mais reconhecida no bairro em que vivemos. Hoje, até na Catalunha alguém conhece a banda, mas no bairro isso diminuiu. E é nossa culpa, saca, nos iludimos tmbm com a internet. Fizemos um movimento pra fora e esquecemos de dentro. Não devemos fazer um em detrimento do outro, mas usar cada ferramenta segundo o melhor que ela pode nos oferecer.

Sabe qual o meu modesto sonho, fazer uma tour pelas periferias da cidade onde vivemos. Hoje, isso é um desafio maior que tocar na europa, por exemplo. Mas vamos trabalhar nele.

Chegamos novamente à questão da organização e da ação coletiva, agora como meio para desfazer a barreira na qual a internet se constituiu.
H – O tempo nos joga dentro de fluxos e refluxos em qualquer atividade continuada que seja, até mesmo no underground: pasmem. Contudo, aparentemente as fileiras de camisas pretas veem minguando a cada mudança que se segue no calendário. O rock doido, o rock du mal está cada vez mais bonito e com menos gente: Como sobreviver dentro do underground e como trazer mais pessoas para dentro dele?

Shurato – Acabei de comentar o erro que cometemos (a banda na qual toco) sem perceber. Pensávamos que ampliar a nossa inserção nos guetos do underground seria o melhor caminho. Ainda que durante algum tempo tenha sido, nos fez negligenciar outra dimensão.

Qual a atratividade da cena punk/hardcore de nosso underground, hoje? Quais perspectivas ela mostra que possa interessar alguém a se juntar? Qual trabalho de propaganda temos feito? Onde? Na internet?….

Sobre viver dentro, é fácil, o nosso pequeno nicho se retroalimenta, o difícil é como sobreviver pra fora. Como expandir o underground mantendo ele independente sem abrir mão de uma qualidade produtiva, em todos os sentido.

Sempre pensei o underground como um modelo de autonomia contracultural e não como algo escondido e pequeno, limitado a círculos de afinidades que se cruzam. Sempre o vi como uma possibilidade de afirmar quão “fortes e grandes somos nós”. E não há outro caminho, ao meu ver, a não ser ampliarmos o nosso alcance, unindo forças, ideias e ações.

“sozinho não dá, eu não vou aguentar…Vem, meu igual”, mas sobretudo, meu diferente!

H – Valheus!

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3 Comentários on “Sobre nós mesmxs, parte I.”

  1. Cara, muito legal e cabeça esse papo sobre a atual cena underground. Tudo que vocês falaram eu venho percebendo a cada ano, muita coisa esta fazendo essa cena ficar cada vez menor e com pouco interesse pelas novas gerações. É uma pena que isso aconteça, mas enfim, enquanto existir pelo menos uma pessoa como eu ou vocês, ainda existirá esperança que essa situação mude. Não querendo dar uma de salvador da pátria; é que se fizermos nossa parte, muitos irão se espelhar em nossas atitudes e continuar de onde paramos. Um abraço e vamos a luta, pois a batalha é árdua e sem fim!!!

  2. […] a parte 2 dessa série de mini entrevistas. Caso cê não saiba do que se está falando aqui, dá uma sacada na primeira parte. Pra refrescar a memória, rola de dizer que é uma “investigação sobre nossa relação com […]

  3. […] ai e tudo mais. Caso você queira dar uma sacada nas outras entrevistas da série: dá um siligue aqui e […]


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