Tecnológico, caótico e catastrófico.

Tá certo, quem siliga (muito) nisso aqui deve estar médio decepcionad@ por conta de uma entrevista prometida que nunca saiu, só dá pra dizer que a entrevista tá feita… nunca foi traduzida pela nossa fazenda de duendes escravos equipe de tradução. Enfim, como as coisas não podem parar por aqui, segue na lata um papo com um dos membros duma das bandas mais impressionantes surgidas por aqui pelo nordeste recentemente.  Já postei coisa sobre e você provavelmente, a menos que esteja errad@ no rolé, já deve ter ouvido e gostado bastante. Falei com o ser humano da direita, conhecido como “Ivo” entre seus pares.

H – Você já teve outras bandas com outras pegadas bem diferentes, bandas até que conseguiram um certo “destaque”. De onde veio a energia (maligna) pra montar a Robot Wars e como foi esse rolé?
Ivo – A primeira banda de minha vida foi com Silvio (o outro membro da Robot Wars) há uns 12 anos atrás e já desde aquela época curtíamos som mais agressivo, rápido e tal. Esse tipo de som sempre foi algo presente na vida da gente e com a Robot Wars foi algo que veio a tona naturalmente, seria estranho se saísse outra coisa na verdade.

H – Robot Wars só me faz pensar em livro do Aasimov, de onde veio esse nome?

Ivo – Ótima referência. Na verdade eu passei os últimos dois anos fazendo mestrado em sociologia e me focando basicamente em ética e tecnologia. Daí quando pensamos na banda eu fiquei meio obcecado em tratar dessa temática que eu acho super relevante e que tem um clima caótico, catastrófico. Fiquei na cabeça que tinha que ser algum nome que tivesse a ver com técnica e de repente acabei lembrando do robot wars do Shikari que já é uma banda que gostamos muito e meio que funcionou perfeitamente pra o que a gente queria.

H – E como vocês decidiram essa pegada “Neo-Crustiana” que a banda possui? Muito incomun aparecer algo pelas terras tupiniquins com todo esse cheiro de From Ashes Rise e Ictus.

Ivo – Isso veio naturalmente também, nem escutamos tanto essa coisa de neocrust ou todas as bandas que são referência pra isso, mas juntar essas melodias tensas com aquela pegada oldschool é algo que simplesmente faz muito sentido pra gente, desde o primeiro ensaio fluiu dessa forma. Pessoalmente eu sempre gostei muito disso, na época do triste fim (de rosilene) eu fazia a maior parte das bases e acabava também sempre mesclando esses climas que pra mim são obviamente complementares. E Silvio tem muita facilidade pra criar essas melodias na guitarra, acho que ele ja aprendeu a tocar meio que explorando esse caminho e acaba sendo algo óbvio quando a gente se junta pra tocar.

H – A Robot Wars fez 2 rolés tocando no meio da rua por esses dias, tava até conversando com o mendigo sobre o quanto disso foi falta de opção e o quanto foi opção; fala um pouco sobre o perrengue e a experiência de ter organizado as duas edições de “Clandestino” ai.

H – Esse lance de fazer rolé na rua, de graça e tal, foi um dos grandes responsáveis por esvaziar os shows ou acostumar as pessoas a quererem entrar pagando menos nos shows por aqui, isso faz com que muita gente aqui por Recife não veja mais com bons olhos organizar show na rua. Vocês também acham delicado organizar rolé de graça pelo mundo?

Ivo – Vou responder as duas perguntas de uma só vez. Na verdade a robot wars tocou na edição número 1 do clandestino, mas tanto eu quanto silvio fizemos parte da organização dos dois. O Clandestino na verdade é um rolê que já acontecia nos anos 80/90 através dos punk locais. Faziam gato da energia, improvisavam o som nas praças e faziam eles mesmos. Pra nós essa idéia surgiu justamente porque sentimos falta de uma cena autêntica na cidade, algo maior que balada, do que só música como pano de fundo pras pessoas encherem a cara. Fora isso, a cidade está extremamente carente de lugares pra tocar, ainda mais esse tipo de som. Daí decidimos que teriamos que tomar uma decisão mais drástica. Essa coisa de tocar na rua não é novidade e ultimamente tem varias cidades que estao fazendo isso por diversos motivos. Os nossos são esses: falta de espaço, ódio a balada, e necessidade de uma interação maior entre pessoas que querem realmente construir algo autentico.

Essa questão que você levantou sobre os shows na rua diminuírem o público de shows pagos não é nem de longe uma realidade local. As pessoas não apóiam os pequenos shows simplesmente porque não se importam. Vão pros shows pra ficar na porta e parece que dá no mesmo. Não pensam em termos de “rede” onde poderiam usufruir mutuamente do mesmo esquema.
Daí fizemos um favor na verdade, acabamos com as portas, com os ingressos, com os editais, só vai pro clandestino quem realmente está interessado de alguma forma naquela expressão, ou fica curioso quando vê na rua.

H – Há algum pouco tempo atrás Aracaju era, de certa forma, referência no que se trata a rolé aqui pelo NE e depois meio que deu uma sumida, como andam as coisas por ai, lugar pra show, público e tudo mais?

Ivo – Creio que isso já foi respondido na última resposta. Ainda assim, não sei se Aracaju já foi essa referência a que você se refere. De qualquer forma as coisas com certeza ja estiveram melhores, o cenário punk parece estar em coma ou correndo atrás do próprio rabo. Sinto que isto está prestes a mudar um pouco, novas energias viajam pela cidade, espero estar certo.

H -Sei que a banda é composta por apenas dois integrantes, como é o processo das coisas numa banda pequena assim? Não quero dizer que esteja havendo uma onda de bandas novas com poucos integrantes, mas surgiu um bocado de coisa boa com 2 pessoas recentemente tipo Onfalos, Test, Robot Wars… pra citar os que eu lembro logo. Vocês notam algo assim também? É uma manifestação do Zeitgeist?

Ivo – Pra gente é só um reflexo de uma cidade com poucas pessoas com afinidade o suficiente. A banda é um duo primeiramente porque não tinhamos ninguem em mente pra fazer esse tipo de som e com ideias parecidas com as nossas. Depois o formato acabou funcionando nos ensaios e tomando formas interessantes na medida que a gente precisava fazer as musicas pensando de outra forma para preencher o buraco.  Deu certo e resolvemos manter, acho que funciona melhor, é bem mais fácil de conciliar ensaios, gravações, viagens e etc. Acho que um dia ainda terei uma “One Man Band”.

H – Quais são as preocupações na hora de compor, o que precisa haver numa música e numa letra da Robot Wars? Falo tanto dos padrões, dos clichês e das coisas que estamos cansad@s de ver em bandas desse naipe de rock quanto das emanações mais sinceras da alma.

Ivo – Não pensamos tanto nisso. Musicalmente a banda funciona desse jeito e ponto, não é algo muito planejado. Nesse primeiro material quase todas as letras falam de tecnologia como ja havia frisado antes. É algo que se tornou um tema para a banda nesse momento e algo que a gente gosta muito de trazer a tona. Não é obrigação que falemos apenas sobre isso, as ultimas musicas que fizemos falam muito sobre morte, curiosamente. Não estabelecemos uma regra a respeito disso.

H – Dizer que “todo mundo” tá se coçando pra pogar ao som de vocês, em casa ou num pico qualquer, deve ser chover no molhado, então: quandé que sai algo novo ou que vai rolar um giro da Robot Wars por aqui?

Ivo – Próximo material é um 7” com o Deaf Kids do rio de janeiro. Ja estamos nos preparando pra gravar esses dias e não sabemos ainda quando ficará pronto. Depois já partiremos pra gravar mais músicas para outro material, tentaremos lançar o máximo de coisa que pudermos este ano.
Sobre uma possível tour estamos analisando as datas, tivemos diversos convites de varias cidades e o formato da banda facilita. É só uma questão de conciliar a vida falsa (trampo, burocracia, tempo) com a vida real. Mais vai rolar em breve.

H – As bandas das quais você fez parte, por um envolvimento seu muito íntimo com a coisa, possuiam uma pegada vegan forte, há espaço para isso na Robot Wars?

Ivo – Sim! Somos vegans, vivemos isso e falamos sobre isso praticamente todos os dias. Isso também está nas letras sendo que talvez de maneira menos óbvia do que em outras bandas.

H- Fugindo um pouco, só pra quase encerrar, do papo sobre a banda, como tá o Om Shanti? E, fazendo uma ponte com a questão dos espaços e da organização das coisas por ai, quando rola uma barulheira pró veganismo por lá?

Ivo – Pra quem não sabe o Om Shanti é um restaurante vegano que eu e Dani temos aqui em aracaju. Ta indo muito bem, estamos trabalhando com veganismo e vivendo dele, nos dedicando diariamente a isso. É algo cansativo e ao mesmo tempo muito gratificante porque podemos alcançar muita gente da cidade com essa proposta. O fluxo até agora tá legal, contrariando o que as pessoas diziam quando a gente decidiu entrar nessa: “a cidade ainda não está preparada para uma proposta tão “radical”. Estamos provando o contrário e descobrindo muita gente de diversas faixas etárias e gostos diversos que se interessam pelo veganismo ou ao menos por uma alimentação sem carnes.
Ainda não tem nenhum barulho por lá por conta da vizinhança, precisamos conservar bem essa relação, mas o “barulho pró-veganismo” tem acontecido de diversas formas, mesmo que nem sempre com punk rock.

H – Valeu pela atenção e disposição em responder esse bagulho aqui, o espaço é seu: fale mal de quem quiser agora.

Ivo – Essa resposta é sempre a mais clichê, mas só gostaríamos de agradecer o interesse pela entrevista e em divulgar a banda. Esperamos em breve poder passar por aí! abraços!

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2 Comentários on “Tecnológico, caótico e catastrófico.”

  1. Eduardo disse:

    Se fuder Ivo!!!Aracaju foi e pra mim ainda é referência pra muita coisa, quer dizer a Aracaju que estou habituado a ver, de pessoas que realmente importam pra mim, para me inspirar como pessoa.

    Sobre os show nas ruas concordo muito com o que Ivo falou, aqui em SSA quase que inexistem espaços para punk/hardcore, então se não tem pai…a gente toma! E o melhor pra tomarmos de assalto são as ruas. Eu estou pouco me fodendo se as pessoas vão deixar de ir aos shows que faço pago, porque supostamente as acostumei mal com os shows das ruas, acho que se a pessoa pensa assim nem merece estar em nenhum dos dois shows.

    E a banda é um duo porque é uma cópia fuleira da Do It! uhahuhauhuahua

    O Om Shanti é onde já comi a melhor comida Vegan da minha vida e de comida eu entendo, sou gordo.

  2. Silvio disse:

    Querido dudu “príncipe do quarto”, nós também te amamos. Quanto a entrevista agradeço pelo interesse, iniciativa e por ainda existir espaços legais como esses na world wide.


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