Sobre nós mesmxs, parte II

Bem, depois de milênios, alguém mais respondeu isso e finalmente rola de publicar a parte 2 dessa série de mini entrevistas. Caso cê não saiba do que se está falando aqui, dá uma sacada na primeira parte. Pra refrescar a memória, rola de dizer que é uma “investigação sobre nossa relação com nós mesmos dentro disso denominado ‘underground’, amparada pela perspectiva de 5 pessoas envolvidas diretamente com ele”. Essa, a segunda parte, foi feita com Pedro Henrrique Mendigo: o nome do cara tá no meio de coisas como Mahatma Gangue; Cätärro; Revista Tubarão Martelo; Bicicletada Mossoró; Capitão Lixo Discos e sei lá o que mais… praticamente uma celebridade underground mezzo local e, porque não, nacional? Além disso, é um dos pirados mais figuras dos quais eu tenho notícia… se é que isso importa.

Só pra lembrar, quando tudo estiver publicado aqui, esse material vai virar um zine em papel… mas isso ainda vai demorar e muito, provavelmente.

Sem mais delongas: enjoy.

H – O hardcore possui uma ligação muito íntima com ativismo, militância e apoio a diversas causas, contudo não é dificil se virar pros lados e perceber um monte de banda que possui um discurso vazio ou fazendo algo muito distante, até mesmo oposto ao discurso das suas letras algumas vezes: comofaz?

Mendigo –  As pessoas acham que são imparciais. A suposta neutralidade é uma zona de conforto que não exige esforço algum e não coleciona inimigos. Mas quando se é neutro, merece apanhar dos dois lados, é inimigo de todos. Em qualquer situação de injustiça, se o indivíduo se abstém, automaticamente ele está do lado do opressor. Você ocupa lugar no espaço, você é um ser social, está inerente a sua existência que você é um ser político, gerencie você apenas sua vida, uma banda ou uma organização. O não pertencer é uma mentira. Se uma banda possui um discurso vazio, ela é uma banda vazia, se a banda possui um discurso fascista, ela é uma banda fascista, não existe meio termo.

H – Muitas bandas, além de todo o envolvimento com a “cena” em geral, tornam-se co-responsáveis pela construção das subjetividades dos indivíduos envolvidos com o underground. Como não tornar o discurso de transformação individual presentes nisso, no underground, uma outra prisão para os próprios pensamentos? Visto que isto é bem corriqueiro. 

Mendigo – É preciso pensar por si, abandonar o costume de seres de rebanho que somos. A gente convive com os heróis eleitos por nós. Admiramos e copiamos tanto que nos esquecemos de “ser”. O nosso inconsciente observador trabalha tanto em rastrear os outros que copiamos o que nos interessa, censuramos o que não nos interessa e está criada a nossa rasa verdade E assim os chefões da cena investigam a nova geração e desse mesmo modo os pupilos transformam-se em protótipos de seus ídolos. O inimigo ainda está lá fora, criando mais forças a cada dia. Desperdiçar tempo com clonagem mal sucedida pode ser uma prisão perpetua.
H – O D.I.Y é, até onde eu sei, uma postura que surge/se desenvolve dentro do  cenário punk, como uma forma de agir para além das estruturas de mercado, e em sua absorção pelo mesmo demônio que bradava combater ultrapassou as fontreiras do nicho no qual surgiu. De uns tempos pra cá, e bota tempo nisso, começa-se a pensar em Do It Together como uma forma de extrapolar o D.I.Y, este é o caminho ou são apenas mais 3 letras para uma camisa cool qualquer?

Particularmente gosto mais do D.I.Y., pois além de servir para estimular ações coletivas, me dá a ideia de que “eu posso tudo”. Em determinadas situações o esperar pelo parecer e opinião de um grupo faz com que momentos sejam desperdiçados. Situações em que muito pode ser criado através da iniciativa individual. Gosto da ideia de se criar coletivamente e acho que assim o meio torna-se mais forte. Mas a força motriz individual nunca deve ser subestimada e inutilizada.

 H – Bem, este aqui é um troço que sai apenas na internet e todos já estamos cansados de ler sobre a relação do mercado de música e rolé underground com ela. Maaaaass: hoje as bandas só mostram seu som na internet, shows são divulgados apenas na internet, shows ocorrem apenas para a internet, coletivos; lojas; zines tudo migra para a internet, internet, internet… todo mundo que é grandinho sabe: ela não está ai para todos e não é essa linda terra livre: yay?

Mendigo – Que a internet é um veiculo de comunicação formidável, ninguém pode negar. O acesso é livre e gratuito, temos mais é que utilizar mesmo. Mas encará-la como um meio de veiculação das ideias que queremos propagar e não o nosso “meio” em si. Eu particularmente faço backup de tudo o que acho importante para DVDs. Não confio em HD externo e sonho com o fim da internet. Todos os zines que curto tenho encaixotados e catalogados. Quando chegar o dia do fim da internet pode ir a minha casa que te passo alguns. O grande lance é carta e fotocópia.

H – O tempo nos joga dentro de fluxos e refluxos em qualquer atividade continuada que seja, até mesmo no underground: pasmem. Contudo, aparentemente as fileiras de camisas pretas veem minguando a cada mudança que se segue no calendário. O rock doido, o rock du mal está cada vez mais bonito e com menos gente: Como sobreviver dentro do underground e como trazer mais pessoas para dentro dele?

Mendigo – Hiper Cinza, aqui na nossa cidade, Mossoró, estamos cansados de ver nascer e morrer o sraight edge do ano e o thrash maniac mais oitentista do século. Digamos que a nossa gangue tenha 10 anos, nós já fomos 4 vezes maiores do que somos hoje. Houve um período que houveram mais bandas e em nossas gigs conseguíamos juntar 300 pessoas. E se me perguntarem se eu sinto falta disso, eu digo que não. O melhor tempo é hoje. O mundo está mais vazio e o mínimo de conteúdo que ainda existe é repugnante. Esse mesmo mundo vazio e falso é um mundo muito mais sedutor do que o meio punk/underground. Não damos status a ninguém, não somos atraentes e tampouco andamos com as melhores garotas do bairro. As nossas famílias ainda esperam pelo dia que a gente vai abandonar tudo isso e estamos envelhecendo e continuando no mesmo lugar, à vista do mundo. Eu realmente não sei como trazer mais pessoas para dentro disso e não me preocupo com isso. Se o mundo acabar e eu ainda tiver a minha meia dúzia de amigos fazendo as coisas ao meu lado, eu terei ido exatamente a onde sempre quis ir, sem precisar ter movido meus pés um palmo. Onde estou é exatamente onde sempre quis chegar.

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One Comment on “Sobre nós mesmxs, parte II”

  1. […] Finalmente voltamos a publicar mais uma das mini entrevistas dessa série “Sobre nós mesm@s” e tamo na agulha pra mais algumas… do mesmo jeito de sempre. Se você não sabe muito bem do que se está sendo falado aqui, pode-se dizer que é um projeto de investigação sobre isso onde estamos tod@s metid@s… em doses moderadas e sob a perspectiva de pessoas também de dentro do lance; com a pretensão de virar um zine em papel pra ser rodado por ai e tudo mais. Caso você queira dar uma sacada nas outras entrevistas da série: dá um siligue aqui e aqui. […]


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