O balé da (des)construção de ícones.

Alguns anos atrás eu vi uma exposição chamada Novas Utopias, no MAMAM; um Museu de arte moderna daqui de Hellcífilis. Pelo que eu saquei, ela trazia um olhar artístico conscientemente ingênuo que transitava por análises de posicionamentos políticos especifitas; proposições de ações cotidianas em prol da bela retomada de nossas próprias vidas; apropriações de ícones culturais intencionalmente ressignificadoras, modelos experimentais de relacionamento interpesoal e alguns outros tópicos políticos menos óbvios da relação arte, cotidiano e $$ nesse mundo semi distópico que é o pós muro de Berlin, o mote de onde vinham as tratadas Novas Utopias; no caso.

A exposição como um todo me deixou incrível ( : 0 ), mas em especial: Eram apresentados três videos de um artista Uruguaio chamado Martin Sastre. Esses três trabalhos juntos compunham a Trilogia Iberoamericana: em sequência – Videoart: The Iberoamerican Legend, Montevideo: The Dark Side of the Pop e Bolivia 3: Confederation Next. Era uma deliciosa salada de referências ao univeso midiático mezzo “pop”, mezzo “cultura de massas”, que todo mundo conhece e mais gente ainda finge detestar. Tudo nso vídeos vinha daquele universo altamente transitório por natureza e responsável pela construção do imaginário de diversas gerações, graças à expansão das possibilidades de comunicação ao redor do mundo.

Na primeira parte da trilogia, vemos um Sastre do futuro descongelando-se para narrar a morte da videoart e a queda de Hollywood diante de versões baratas dos seus próprios filmes produzidos na américa latina e estrelados por Sastre, disto resulta uma alteração da balança de poder mundial. Eis o gancho para a segunda parte, onde uma agente adolescente do futuro é mandada a Montevideo pelo Centro Europeu de Inteligência para descobrir a origem do sucesso do artista, escondido atrás de um segredo sombrio. Por fim, temos um futuro distante e distópico com o mundo fragmentado por guerras e um Matin Sastre heróico que enfrenta um “monstruoso” Mathew Barney; retratado como responsável pela morte da Videoart na trilogia. O confronto entre Sastre e Barney libertaria o mundo em nome da Bolívia: A Confederação Iberoamericana e reestabeleceria “os rumos da produção cultural no mndo” = paz. Naquela pegada de quem controla seus sonhos controla seu futuro. A trilogia é uma boa mescla de animações, efeitos especiais de terceira e filmagens picaretíssimas. Maaaaas nem de longe é cinema thrash desproposital, ou cinema thrash imitando filme com pouco orçamento dos anos 70, a intenção em sastre é outra; mais a ver com uma relação entre américa latina e cultura altamente universal; ou feita na Europa – como diria +- um doidão ai.  Quase tudo isso eu tirei da internet, nem lembrava de tanta coisa assim dos curtas, mas posso dizer seguramente que vale muito a pena, se você tiver alguma oportunidade.

Os vídeos de Martin Sastre jogam muito bem com todo esse universo glamourizado dos ícones de TV, marcas famosas, revistas internacionalmente conhecidas, objetos fetichizados e correlatos. Há um humor crítico que revela uma simultânea aproximação entre o artista e este universo de coisas; uma consciência das relações de poder e consumo presente neste mesmo universo. O trabalho de Sastre é cheio de citações e referências quase subliminares, daquelas que você só entende se também estiver mediamente inteirado e comprometido, especialmente com as coisas obscuras oriundas  dos anos 80 e 90, para navegar tranquilamente nas obras do Videoartista. Contudo, é necessário também uma compreensão; nem que seja mínima; da ainda existente subordinação cultural da america latina aos paises europeus; das relações políticas entre os blocos econômicos consolidados no século XX, das estruturas de poder transmitidas e reproduzidas através da indústria do entretenimento, do imaginário latino… creio que quanto mais terreno se cavar no trabalho de sastre mais se pode tirar, algo óbvio.

Infelizmente eu nunca encontrei a trilogia na internet em algun link que funcione. O que rola de mostrar aqui, diretamente do youtube pra você, são algumas coisas “menores”, trechos de trabalhos e um longa que o artista lançou em 2010. Além de uma entrevista e uma palestra nas quais o artisa fala sobre seu trabalho, acho que já é um bom material pra começar a conhecê-lo.

Este “Trailer” do The Rose Conspiracy tem uma música por cima, mas dá pra ter uma noção de como é o filme.

Uma outra ótima ação dele foi a criação da Martin’s Sastre Foundation for the Superpoor Art, que promivia/ajuda a promover intercâmbios artísticos entre Europa e América Latina, dá um conferes nela ai.

E ai o Miss Tacuarembó: primeiro longa de Martin Sastre, no qual uma menina da cidadezinha de Tacuarembó; Uruguai; sonha em ser uma cantora/atriz famosa enquanto lida com o conservadorismo religioso da sua cidade e posteriormente as desilusões da vida adulta de trabalho e pobreza. Uma breve sinopse dessas poderia até dar uma ideia errada do filme, mas lembre-se: é um filme de Martin Sastre e Miss Tacuarembó já começa ganhando 5 pontos por ser um musical (nas melhores/piores vibes Disney Chanel) e leva mais um bocado a cada referência que faz ao imaginário compreensível por nós, Latinos.

A qualidade não tá das melhores, ou meu PC tá com alguma coisa errada, e talvez não demore muito tempo no ar, talvez retirem logo e nunca mais seja visto… essas coisas bestas/contraditórias de gente que gosta de direitos autorais sempre são assim.

Seguem a entrevista

E a palestra

– Björk no cuentas, es atemporal.

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