A trilogia do silêncio

Eis aqui uma verdadeira pedrada vinda diretamente do mundo do cinema no meio da sua cara, embalada num pacote estético absurdo. Simplesmente pelo fato de serem antigos e em tons de cinza, os filmes tem sua carga dramática drásticamente intensificada, o que acaba combinando extremamente bem com o tom metafísico das problemáticas apresentadas nas narrativas. Esses filmes de Ingmar Bergman questionam intensamente a tentativa de contato do ser humano com o divino por um lado, pondo este como inxistente; indiferente ou algo próximo a isso. Pelo outro, eles exploram a dificuldade existente na comunicação do ser humano com seus semelhantes e os devastadores conflitos existentes no convívio íntimo gerado por ela. Um dos grandes brilhos do cinema de Bergman é não jogar respostas, assim como aquilo que entendemos hoje como as boas obras; eles lançam perguntas… e são perguntas difíceis, extremamente difíceis.

Quase tudo hoje em dia no cinema de entretenimento é ou vira trilogia por motivos puramente comerciais, mas esses filmes são de beeeem antes disso. São de uma época em que fazer trilogia geralmente siginifcava ter algo a se dizer e, incrívelmente, são, segundo o próprio Bergman, fruto de uma onda de trilogias. Mas esses filmes certamente dizem algo, algo que não é fácil de ser digerido ou dito. E como são conhecidos em conjunto, nos deixam em silêncio; pensando sobre o silêncio; ou tentando suportar o silêncio.

O primeiro filme da trilogia conta um drama familiar temperado com uma boa dose de algo como uma esquizofrenia misturada a incesto; indiferença; isolamento e dúvidas. Um corpo que definha e leva junto a mente, ou o inverso, arrastando consigo, em seu definhar, todo um grupo de pessoas.

No segundo filme, temos uma pequena comunidade dos fiéis de uma paróquia abalada por medos gigantescos; um balé de amor e ódio e a morte, e um pastor dividido entre o esforço hercúleo de condizir a todos e a desistência frente às suas imensas dúvidas. O inverno se apresenta como o fim dos ciclos, onde não resta ou resta pouca vida e o filme apenas nos dá um vislumbre de um possível recomeço.

No terceiro filme o silêncio divino encontra seu ápice. Duas irmãs viajam juntamente com o filho de uma delas e sua incomunicabilidade atesta o total silêncio existente na dimensão metafísica e na cotidiana. Quando não há o silêncio, há a incompreensão; o diferente e o outro e isto é apresentado como algo tão, ou mais, horrível que o silêncio.

O próprio silêncio intensamente presente nos filmes de Bergman se mostra como elemento significante nessas obras, quando o peso do silêncio parece esmagar e sufocar as pobres criaturas perdidas nos infortúneos da existência.

Veja os 3 em sequência, de uma vez só se possível. Mais e um pouco mais sobre a trilogia.

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