Do miserável aos redentores.

Além de uma bateria de rock’n roll inocente dos anos 50, passei um bom tempo recentemente ouvindo The Body. Nem sei por qual motivo ainda não havia falado da banda aqui, até onde lembro e a busca do blog me deixa ir. É aquele tipo de som com velocidade, e clima, de funeral que te traz todas as suas lembranças felizes erradas à tona.

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É gritaria desesperada misturada com bateria de lata e uma guitarra mais pesada que… que.. que… sei lá, a morte de alguém ai. Além disso, ainda rolam umas camadas de noise propositalmente irritante; uns eletrônico du mal e uns samples escolhidos a dedo, pra dar aquele clima terrorcult ao trabalho do duo nativo de Portland. Os caras conseguem fazer uma coisa foda, que é fazer um som lento sem músicas semi intermináveis… mas ouvir uma sequência longa de músicas, leia-se “um álbum inteiro”, ajuda a construir aquele ambiente mezzo introspecção mezzo misantropia que tanto se precisa de vez em #semprequando.

Buscar por informações da The Body nas internets vai lhe levar simplesmente a reviews elogiosos vindos desde sites focados em tudo que há de ruim até picos extremamente hypes da internet dizendo que o troço é bom e que todo mundo deveria ouvir, tipo quando eles bateram a Hannah Montana como melhor lançamento do mês. Além disso, todos os trabalhos visuais relacionados à The Body são incrivelmente bem pensados, das fotos com capuz de assassino tiradas no meio do mato até as ilustrações que se assemelham a iluminuras de bestiários renascentistas. E simplesmente, esta foto.

No Bandcamp da The Body dá pra sacar desde o primeiro trampo Just Wretched até uma compliação lançada um tempo atrás, o álbum mais recente, Christs, Redeemers, lançado pela Thrill Jockey Records, no entanto, não tá pra ouvir ainda. No máximo, até onde sei, rola de dar uma sacada num dos sons pelo soundcloud da Thrill Jockey e esse vídeo

… e ficar abismad@.

Sem mais para o momento.

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Le Manoir du Diable

Considerado o primeiro filme de horror da história, Le Manoir du Diable, do lendário Georges Méliès, é uma obra feita em 1896 com pouco mais de 3 minutos. Nela, um demônio adentra um castelo na forma de um morcego e conjura diversas criaturas para atormentar seus visitantes; ou moradores; em uma sequência de cenas provavelmente perturbadoras para a época: tendo em vista a ascenção até então recente do cinema enquanto mídia. Os efeitos especiais de Méliès certamente estavam anos luz a frente de qualquer outra coisa feita por seus pares, sem falar na caracterização dos personagens. Uma pérola do cinema, da época de seu início.


Sons para ouvir após o fim do mundo

O mundo acabou, nós é que ainda não percebemos. Para de certa forma celebrar isso e marcar o começo do blog em 2013, toquem fogo em tudo e ao redor das chamas dancem.

 

 

Sim, o coro de Aleluia de Händel. A peça foi composta tendo como inspiração a segunda vinda de Jesus à terra: se você fez aula de catecismo deve saber muito bem do que eu tô falando. A parte legal é que não é piada. Mais legal ainda é saber que de alguma forma ela agora faz parte do imaginário popular como algo um tanto diferente de seu propósito original, talvez nem tanto.

 

Eu simplesmente acho essa uma das músicas mais absurdas da existência. Ela consegue, em menos de 1 segundo, ser mais conceitualmente densa que boa parte de toda arte produzida pela humanidade e bater num dos pontos cruciais da experiência humana. Se é pra pensar em algo apropriado para um pós apocalipse, eu pediria um repeat infinito de “You Suffer”  um repeat infinito de “You Suffer” um repeat infinito de “You Suffer”…

 

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4:33, de Jhon Cage, esta também está na lista das melhores músicas já compostas, inclusive eu já falei dela aqui. Seus questionamentos facilmente extrapolam as barreiras do campo musical. Também acho que pouca coisa seria mais apropriada para se ouvir quando tudo………………………………………………………………………………………………………………………………
To be continued…


Ontem foi um dia bom para o som ruim

Como já havia sido mais ou menos falado neste blog, 27/11/2012 era um dia marcado no calendário. A notícia era de que o Mass V da Amenra viria ao mundo… veio, pra despertar as mais sombrias e piores coisas que a sua alminha possa evocar. A culpa do pecado é da  Neurot Recordings, amém. Mas na CVLT Nation; que é um site praticamente obrigatório se você usa muita camisa preta, já podia ser ouvido há alguns dias… Como isso foi possível? Não importa. Apenas saiba disso, se vocÊ tem um $ sobrando, desde o dia 26 já é possível fazer uma pre order no site da Neurot. Ahh, se eu tivesse…Enfim, dê play no streaming lá da CLVT Nation; ponha o volume no talo; tranque a porta; apague a luz e feche os olhos…

Se você sobreviver, saiba que não só de bandas gringas fodas viveu o dia de ontem. Segundos consta no bandcamp, foi lançado o segundo álbun da #ultrapesada Bemônio: Serenata, achei menos dark ambient que o primeiro. Tá mais experimental/noise e isto nem de longe foi um comentário negativo, achei fod²do mesmo jeito, só que diferente… e no ótimo sentido. O próprio grupo aos poucos colocou faixas online  para serem ouvidas e ontem soltaram todo o bagulho. Noises, drones e outros mimos numas atmosferas perturbadoramente pra baixo; tipo dentro do abismo. Bêmonio é um ótimo projeto nacional pra quem curte essa linha de som ambiente sombrio., trilha pra filme hedionde e coisas antibalada… eu acho.

Ao que tudo indica, isto é a capa do Mass V, ou algo assim.

 

Faça como fizer, escute estes dois lançamentos absurdamente intensos sendo bastante generoso com o potenciômetro da sua caixa de som.

Enfim, ontem foi um dia bom.


Arte e Atrocidade

A “morte por mil cortes” era uma forma de execução tradicional da, sempre humanitária, China. Existiu tranquilamente até os primeiros anos do século passado, quando tornou-se ilegal, e consistia em cortar; retalhar; mutilar; desmembrar; amputar etc publicamente uma pessoa amarrada num mastro. Era empregada contra delitos graves, como o assassinato dos próprios parentes, ou segundo cruéis caprichos de algum regente. Algumas vezes ópio era administrado para prolongar a morte, aliviar a dor ou as duas coisas juntas.

O nome disso em chinês tradicional é … leia Ling-Chi, ou Leng-Che. Sim, também acho que é dai que vem o nome da bandade grind médio +-  Leng Tche.

Mas não estamos aqui pra falar dela.

Tente, procure, busque, faça o que der pra assistir Ling Chi: de Chen Chien-Jen; artista taiwanês que além de fazer filmes pesadamente focados em questões políticas das terras orientais, possui algumas fotomontagens e esse vídeo focando no lado mais inumano de nós mesmos. Tanto no Ling Chi quanto nas suas montagens, Chien-Jen aparece como personagem. Segundo um texto muy foda publicado no Artinteligence, um lembrete de que somos e podemos ser tanto algozes quanto vítimas; talvez algo pior. Todos os filmes do Chien-Jen que eu já vi possuem um ritmo sufocantemente lento, quase opressor. O Ling Chi chega no auge de estetizar a violência em planos cinzas… longos… lentos… praticamente sem áudio… sensuais.

É uma sublime recriação em vídeo de uma execução… não, não achei o vídeo inteiro na internet.

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Comecinho do Ling Chi do Chen Chien-Jen, antes das facas.

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Foto duma Ling Chi num doidão ai, circa 1905.

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Da série “Lost Voices” 1997, Chien nu e Chien decapitado sobre pilha de corpos.


Evil Spirit

Dá uma sacada na piração nova vinda das profudezas dos reinos das trevas, Evil Spirit, coisa fina. Quem participa da bagaça é o Ari, do Facada; que mora nalemanha e ainda assim faz parte da banda… O outro meliante eu não saco quem é, infelizmente.

Noiei alto no som, velocidade de enterro 1, 2 e 3; sujeira cadavérica e voz de fantasma.

 


De um ao infinito

Um homem assumiu uma missão, uma missão que nunca conseguiria cumprir, jogou-se numa prisão para seus próprios dias. Roman Opalka decidiu em 1965 que contaria até o infinito, iniciou sua contagem em uma tela com 196 x 135 cm; medidas exatamente iguais a todas as outras que pintou em sua vida. Chamou seu trabalho de “1965/ 1- ºº “, cada uma das telas pintadas por opalka era um “Detalhe“, todas iniciavam no número posterior ao último pintado na contagem, do canto superior esquerdo ao inferior direito, igual a como escrevemos normalmente. Os detalhes eram feitos sem espaços, sem vírgulas, sem pausa. Um preto sobre branco posteriormente, em 1968, transformado em preto sobre cinza; para remover qualquer siginificação do fundo. No mesmo ano, passa a gravar sua voz pronunciando cada número pintado e a fazer fotografias idênticas de si mesmo diante de cada detalhe terminado. Em 1972 adciona um pouco de branco a cada detalhe, esperando pintar branco sobre branco em 7777777.

Uma vida dedicada a um trabalho infindável. Isso era a construção de uma obra singular, gigantesca e densa. “Uma única coisa, uma única vida.” como Opalka mesmo se definia.Tudo encerrou-se em agosto de 2011 em 5607249, Opalka finalmente chegou ao fim de sua contagem; de sua vida.

Certo, tudo que está ai é facilmente encontrado na wikipedia (advinha de onde eu tirei isso?) Mas, consigo dificilmente pensar um artista que tenha mais a ver com o espírito desse blog aqui que Opalka. O trabalho dele é monstruosamente denso e carregado, monocromático como tudo aquilo que é fuderoso deve ser e de uma beleza poética fenomenal; além de ser fuderoso visualmente também. Nunca tive o prazer de ir a alguma exposição na qual o trabalho dele participasse, mas imagino que mergulhar o olhar na imensidão do 1965/ 1-  ºº de Opalka seja como acompanhar uma vida congelada em um instante; deve ser como traçar seu caminho por inteiro através do tempo, foda. Imaginar uma dedicação dessas é coisa para poucos.

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