… Nem Mestres, o Sin Dios e o Cólera já disseram tudo.

… Nem mestres” é o nome do trampo novo da Eu o Declaro Meu Inimigo, que eu acho que vai sair via eles mesmos.  Comecei a trocar umas ideia com Diego, que é o cantor, um pouco antes deles divulgarem um som na net e a imagem de capa do lance… meio que terminei depois disso. Rola de dar uma sacada no som e na imagem no bandcamp e especialmente contribuir com um rolé que eles pretendem dar pelo NE. Juro que é fácil encontrá-los na internet, comprar o seu e blábláblá. Enfim… o papo seguiu bem na linha do cotidiano de praticamente toda banda que se tem notícia. Talvez,  exatamente por isso ele tenha sido/seja relevante.

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É hipster agora.
Tem uma simbologia de perna cruzada, gente descalça tipo os bagui de abbey road, bicicleta e foto de cor sem graça. Não sei se todo mundo vai conseguir sacar…

H – Criar expectativas é o alicerce da decepção, mas ainda assim é praticamente impossível não criá-las. Com este novo trabalho, quais são elas? As expectativas, no caso.

Diego Edimí – Fomos produzindo de forma bem despretensiosa e, as vezes, até lenta. Começamos a ter algumas idéias sobre como o material poderia ser, quantidade de músicas, formato e tudo mais que envolve essa produção mas, acredito, que pensando em um prazo maior de tempo do que realmente esta sendo. A banda por muitas vezes já passou alguns meses sem ensaiar, dessa vez estavamos ensaiando frequentemente e tocando algumas vezes. Por coincidência apareceram alguns convites que nos daria uma boa sequência de roles (alguns fora do estado). Queríamos aproveitar esse tempo de frequentes ensaios e shows para gravar. Acabou tudo acontecendo tão rápido que, na verdade, acho que surgiram mais idéias e sugestões do que realmente uma expectativa criada. As decisões foram rápidas e se tornaram práticas também de forma rápida. Ainda a muito o que se fazer mas está sendo tudo bem rápido. Por exemplo, entre o tempo de receber essas perguntas e ter tempo de responder apareceu a oportunidade de terminarmos a gravação do CD aqui em casa e fizemos isso no dia de ontem. De capitação falta apenas a participação de um casal de amigos que será feita de outra forma e em outro lugar. Daniel, que também foi o responsável pela gravação do primeiro material, já esta trabalhando em cima das músicas para que elas saiam, realmente, o mais rápido possível. De expectativa mesmo, só aquela gigante de escutar pela primeira vez o áudio finalizado. Naturalmente fomos deixando Daniel sugerir e por em prática coisas relativas a timbre e tudo que envolve e influi demais no resultado final, superou demais as nossas idéias e conceitos de como deveria ser e por isso, pra mim, a expectativa está sendo bem maior e basicamente está voltada a isso. Quero escutar e achar foda junto com os caras. O que a gente faz depois e se vai dar certo eu não estou tão “preocupado” no momento porque temos uma idéia básica que também já esta sendo colocada em prática.

H – Essa primeira pergunta foi feits antes do Trampo sair e agora ele está ai, em breve, pra qualquer mortal com audição poder ouvir. No fim das contas, o som saiu de uma forma que vocês conseguiram ouvir juntos e achar foda?

Diego Edimí – Na verdade, ainda estamos nesse processo de procurar agradar a todos da banda, mas desde a primeira audição achamos foda. Agora são só alguns detalhes de volume e equalização de uma ou outra música.

H – Boa parte dos membros da banda possui alguma relação com militância e isso se reflete na banda. Então, continuando no âmbito das expectativas, O que vocês pretendem ou esperam comunicar nesse novo trabalho sem se tornarem apenas mais uma voz dizendo as mesmas coisas de forma diferente para mais ou menos o mesmo tipo de pessoa “de sempre”?

Diego Edimí – Não existiu uma unidade de composição ou algo do tipo pra esse novo material. Acredito que por conta do tempo grande de produção das músicas elas tem algumas diferenças de influências, composição e envolvimento com o que tava acontecendo com cada um. As letras, basicamente, são relacionadas a algo bem específico que passei, senti, li, escutei, observei ou pensei dentro de um espaço de tempo grande. Então nelas você pode perceber em alguns aspectos o que se tornou a minha relação com o trampo, com o transito, com o que passei a ler e escutar. Não existe uma grande pretensão da minha parte de atingir, com as músicas e o material, outro tipo de público. Tudo tem acontecido ao contrário na verdade, as coisas aparecem pra mim e passam a ter significado e por isso saem na música. O material esta mais para um produto final das influências que sofri nesses últimos meses do que algum tipo de estopim. Para outras pessoas. Ainda falamos das mesmas coisas, não existe uma grande temática ou descoberta por trás de tudo, a não ser as nossas próprias. Além disso o Sin Dios e o Cólera já disseram tudo.

H – Você não acha que pode soar elitista desprender-se da necessidade de atingir outros tipos de público? E se a Sin Dios e a Cólera já disseram tudo; por que continuar?

Diego Edimí – Não consigo tratar como necessidade atingir “outro público”, como disse, tudo o que rola nas letras são coisas que atingiram a gente e significaram algo, tudo é uma “reação” diante de alguns fatos. Não consigo ver uma finalidade que justifique a banda correr atrás de outros públicos ou tratar a própria busca como uma finalidade. Acho que o importante é dar vazão a essas idéias, o reconhecimento (no sentido de compartilhar das mesmas idéias) vem naturalmente. O Sin Dios e o Cólera já disseram tudo, vale a pena continuar porque ainda faz sentido, porque difundir a idéia ainda vale, porque ainda acreditamos que o fato de pegar alguns instrumentos e cantar algo ainda tem um significado verdadeiro, mesmo que seja só pra gente, e também porque é algo que gostamos de fazer, andar por ai e tocar.

H – Creio que 75% dos membros da banda possuam alguma relação com artes visuais, mas no trampo anterior vocês optaram por convidar um monte de gente pra ajudar na construção do encarte. Dessa vez vai rolar uma “particpação” maior dos próprios membros da banda?

Diego Edmí – Acredito que vai rolar uma participação menor dos integrantes. Nesses últimos meses conhecemos e passamos a ter uma relação de amizade com muitas pessoas por conta da banda. Falamos com algumas dessas pessoas e elas toparam contribuir a produção de conteúdo do cd basicamente porque também curtimos o trampo de cada uma delas e já que rola esse compartilhamento de idéias achamos que seria uma boa idéia inclui-los.

H – O Trampo já vai sair/já saiu, mas ainda dá pra adiantar e falar sobre essas pessoas que estão ajudando vocês na construção do Album?

Diego Edimí – O esquema do conteúdo foi bem parecido com o primeiro material, mas dessa vez conseguimos fazer de forma mais organizada, acredito que por todas as pessoas serem nossos amigos e curtirem a banda. Dessa vez recebemos colaboração de Pedro do Rótulo, Marreco da George Romero, Imarginal, Day, Fernando JFL do Cätärro e Henrique, um amigo nosso. Eu (Diego) e Wendell também contruibuimos. Foi algo bem livre e curtimos muito as idéias. Depois de tudo pronto a Livrinho de Papel Finíssimo nos deu uma ajuda na escolha dos materiais, na impressão e na produção do material físico.

H – Falando do álbum em si, como está sendo o processo de construção das músicas do mesmo e quando será possível encontrá-las de graça na internet num blog doidêra de downloads lá da Malásia… ou do bairro vizinho?

Diego Edimí – O processo de gravação já nem existe mais. Alugamos por 6 horas uma sala no Estudio 1 em Jardim Atlântico na quinta feira passada, Daniel levou os equipamentos de capitação e Átila e Wendell conseguiram matar todas as baterias e guitarras. Surgiu uma viagem pra Daniel e ele sugeriu gravarmos o baixo e a voz aqui em casa ontem (terça-feira). A acústica não é a ideal mas curti o resultado. A idéia é estar com o material físico no final do mês de novembro. Acho que não muito depois disso vamos colocar no bandcamp.

H – E falando em Malásia, Vocês em breve farão um giro por alguns lugares daqui do BR. Geralmente as bandas esperam para fazerem esse tipo de coisa quando já possuem material novo e tudo mais, mas sei bem como é complicado arrumar tempo coincidente pra todo mundo. Como foi/está sendo/ vai ser todo esse processo, já que vocês vão passar por um monte de lugar que nunca foram antes.

Diego Edimí – Na verdade estamos tentando ir com o material pronto. Imaginamos que daria tempo e estamos correndo atrás disso e torcendo pra dar certo. Como falei antes, aconteceu tudo de forma inesperada mas de algum jeito encaixou com os compromissos de todos da banda. Não esta tudo definido em relação as datas mas esta bem avançado. O show de Teresina, por exemplo, já foi anunciado e já ta rolando uma divulgação. Ta sendo foda todo processo, ninguém da banda já teve alguma experiência com um role um pouco mais longo e mais distantes. Acho que nenhum dos integrantes foi além de Alagoas (para o sul) e Rio Grande do Norte (para o Norte). Rola aquela tensão em relação ao que pode dar errado mas acredito que, muito mais, uma vontade de que esses dias cheguem logo e passem lentos.

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Não há planos, nunca houve um plano – Entrevista, Oathbreaker

Eu já falei um bocadinho sobre essa banda aqui no blog, mostrei clip; cartaz de tour e o escambau. Tá meio que no topo da lista de “descobertas +- recentemente” e eu indico pra qualquer pessoa de bem nesse mundo da camisa preta e bufenta, o bagulho é tenso, denso e chei de raiva. Dai, corri atrás desse papo e rapidamente vieram as respostas, bem formais até. Elas estavam esperando eu criar vergonha na cara o tempo certo para serem publicadas. Quem respondeu o lance foi o Ivo, que toca bateria na banda. E rapidamente nós falamos sobre coisas que foram, de certa forma, pouco abordadas em outras entrevistas que a banda já fez por ai. Lá vai…

Le Guess Who festival, Utrecht, Saturday 1st of December with Amenra. Pic by Tim van Veen

H – Eu tenho notado que bandas mais “metálicas” e “dark Hardcore” tem ganhado popularidade,  há até uma certa onda de posts mais ou menos do tipo “como se vestir como um crustie” em blogs… não que o punk não seja moda desde sempre. Maaaas, estamos lidando com uma torrente disso e de alguma maneira uma ou duas bandas estão sendo beneficiadas com essa coisa toda. Vocês acham que se enquadram nessa categoria? Vocês veem algum problema nisso?

Ivo – Existem posts ensinando a como se vestir igual a um crustie? É a primeira vez que eu escuto algo sobre isso! Eu não sei se a gente se encaixa em algum tipo de modinha, nós definitivamente nunca tentamos ser parte de uma. Começamos em 2008 tocando o que a gente queria tocar e continuamos apartir disso. Não é novidade que pessoas vão sempre querer se encaixar em movimentos undergrounds, eu só posso esperar que as pessoas entendam que nós somos uma banda verdadeira. A única razão pela qual a Oathbreaker existe é porque nós queremos que ela exista e nós precisamos que ela exista. Não há planos, nunca houve um plano.

H – Dividir o guitarrista com a AmenRa faz com que as pessoas esperem um som atmosférico e denso. Ao fazer um álbum inteiro baseado no siginifcado das cartas do tarô, eu acho que a banda contribui para essa ideia. Mas essa é a meta da OathBreaker, atingir tanta densidade que chegue a beirar um tipo de espiritualidade?

Ivo – Eu acho que há espiritualidade em todas as coisas, tudo depende de como você experiencia algo pessoalmente. Eu sou ateu, mas para mim a música é algo espiritual. Tendo isto sido dito, eu acho que Caro queria contar uma história pessoal em Mæstrøm e usou as imagens do tarô como base para as letras porque ela sentiu similaridades entre o que nós queríamos dizer e o que as cartas siginificam. No momento em que você faz algo de forma muito pessoal, isso quase que automaticamente se torna espiritual. Mas não é a nossa meta, é algo que acontece.
H – Como eu disse antes, e qualquer pessoa que busca informações sobre a banda sabe, Mæstrøm foi inspirado pelo siginificado das cartas do tarô. Vocês pretendem continuar produzindo álbuns “conceituais”? Como por exemplo “uma música para capítulo deste livro” ou algo do tipo?

Ivo – Na verdade, não. Produzir um álbum é um processo que demanda muito e você nunca sabe ao certo como vai ser. Fazer um álbum é um trabalho árduo, sacrificante e onde você espera que no final tudo consiga se encaixar. Nós estamos próximos à gravação do nosso próximo trabalho e mesmo nesse ponto, eu não tenho certeza de como vai ser.

H – Vocês lançaram o Mæstrøm, que recebeu ótimas críticas, e tocaram num monte de lugares; quais os planos para 2013.?

Ivo –  Em março, nós iremos gravar nosso próximo álbum no GodCity Studios em Salem, MA. Pouco depois, temos alguns shows marcados aqui e ali, mas além disso; nós não sabemos. Nosso foco principal agora é finalizar o álbum, o resto pode esperar.H – Os vídeos de Origin e Glimpse of the Unseen são desgraçadamente intensos, há uma bela simplicidade obscura neles, e vocês parecem ser bastante cuidadosos com os aspectos visuais da banda. Fotos, Flyers e tal… quem os cria e como vocês enxergam este lado da Oathbreaker?

Ivo – Tudo que você mencionou foi criado por pessoas diferentes, mas obviamente você sempre escolhe trabalhar com pessoas com as quais você se conecta. Algumas coisas foram nós mesm@s, algumas outras foram outras pessoas. Mas no fim das contas, você tem que se sentir confortável com tudo. Nós tentamos colocar tanto esforço no aspecto visual quanto colocamos na nossa música, porque os dois lados precisam trabalhar juntos e não um contra o outro.
H – Provavelmente a cena belga não é muito bem conhecida aqui no Brasil, como provavelmente a brasileira não é na Bélgica. O que você pode dizer sobre ela, de selos a pivetes com patches nas camisas? E sobre vir de um lugar que não é, digamos assim, focado pela cena hardcore mundial?
Ivo – Como a maioria das cenas, a belga vem e vai em ondas. Algumas vezes, nada acontece e de repente todas as peças se juntam e você tem uma cena hardcore fervilhando. Exatamente agora a cena está bem pequena e inativa, mas eu tenho uma sensação de que alguma coisa vai acontecer e tirar todo mundo dos seus lugares. Além disso, há bandas realmente muito boas atualmente na Bélgica. Procure Rise and Fall, AmenRa, Hessian, Blind Faith, The Black Hearth Rebelion, Toxic Shock, Imaginary Dictionary, Reproach
H – Caro possui uma voz capaz de atingir timbres ásperos e bonitos, como dá pra sacar no Mæstrøm, e provavelmente já perguntaram pra vocês mais de uma vez se há planos de explorar mais isso. Então, há?
Ivo – Nós tentamos evoluir nosso som como banda e tentamos explorar novas ideias e direções. Na música Agartha, que nós fizemos para o Split com a AmenRa, nós já experimentamos como vocais diferentes, se parecer adequado; nós certamente tentaremos outras coisas também.

H – A cena hardcore está imbricada com uma boa dose de política, ou de pessoas que pensam que estão mudando o mundo. Em entrevistas , vocÊs mais de uma vez disseram que isso não faz parte da Oathbreaker como um grupo, mas vocês como indivíduos possuem algum tipo de envolvimento. Então, não dá para negar que isto acaba influenciando a banda de alguma forma, como?

Ivo – Na verdade não influencia. Oathbreaker são quatro pessoas diferentes com perspectivas diferentes e históricos diferentes, mas nós encontramos nossos pontos em comun na nossa amizade. É claro, tudo que nós fazemos/dizemos como indivíduo sempre será ligado à Oathbreaker, mas até agora isto não foi um problema.
 
H – Se há alguma coisa que você queira dizer para as pessoas no Brasil que não conhecem e gostam da Oathbreaker…
Ivo – Sim, eu falei para vocês sobre a cena da Bélgica, me digam algo sobre a cena do Brazil! Obrigado pela entrevista eu estou lisjogeado pelo fato de que pessoas a meio mundo de distância se importem com coisas que nós criamos durante nossos ensaios.


Papo cabeça, só que não, x2

Então, por esses dias foram parar na internet dois papos com integrantes de bandas que deveriam fazer parte da formação moral de qualquer pessoa de bem nesse mundo: Jacob Banon e Keijo Niinimaa. Os dois papos são bem diferentes, mas igualmente interessantes de sacar. Se você não fala a língua que o mendigo da sua rua sabe cantar quando tá bêbado, nem tente.

Rungs in a Ladder: Jacob Banon é tipo um doc-entrevista com o vocalista da mais que caótica Converge, feito pelo Ian MacFarland, onde ele foca justamente no que o tornou sequelado transformou na pessoa que ele é hoje, como ele lida com seus conflitos pessoais e como isso reflete na sua banda. Tem um tantnho de clima pretensioso, talvez criado por uma estética hypada do bagulho, mas vale a pena sacar; principalmente se você curte essa coisa de entender por que as coisas são do jeito que são. E principalmente, curte a converge… mas sem idolatria, sem idolatria.

E o Kaaos Zine, através da Kaaos TV, um coisa beeeem massa lá da Finlândia, trouxe esse papo rápido e diverso com a voz por trás dos berros na máquina de moer crianças chamada Rotten Sound. Da tour com a Nasum às expectativas para seus projetos musicais em 2013, o papo passa por muita coisa. Numa mistura de perguntas óbvias e respostas cretinas, os dois vão levando o papo numa leveza ímpar… mas é legal de sacar também, destaque para o finalzinho da entrevista… 8,5 de simpatia.


Sobre nós mesmxs, Parte III

Finalmente voltamos a publicar mais uma das mini entrevistas dessa série “Sobre nós mesm@s” e tamo na agulha pra mais algumas… do mesmo jeito de sempre. Se você não sabe muito bem do que se está sendo falado aqui, pode-se dizer que é um projeto de investigação sobre isso onde estamos tod@s metid@s… em doses moderadas e sob a perspectiva de pessoas também de dentro do lance; com a pretensão de virar um zine em papel pra ser rodado por ai e tudo mais. Caso você queira dar uma sacada nas outras entrevistas da série: dá um siligue aqui e aqui.

Quem empresta a voz e as ideias dessa vez é o Poney: que é da Violator, da Cidade Cemitério, mantém um lance chamado Distrito Vegetal; um blog pra quem é VEGetariANO se inteirar de um monte de coisas e conhecer lugares bacanas desses Brésyilzão; especialmente do DF; e sei lá mais o quê. Essa entrevista foi mandada pro Poney no começo de 2012, respondida na metade do ano e só tá sendo publicada agora em 2013… o Ultraman Tiga quis assim, sério. Antes tarde do que mais tarde, certo? Queria aqui pedir desculpas ao cara pela demora em publicar o lance, enfim. Algumas coisas podem parecer sem nexo, mas foi assim mesmo que ele respondeu : ]

Sem mais delongas.

Então, sou o Poney respondendo aqui o Hipercinza 5 perguntas, foi mal pela demora. Então beleza, vamo ai.

H – O hardcore possui uma ligação muito íntima com ativismo, militância e apoio a diversas causas, contudo não é dificil se virar pros lados e perceber um monte de banda que possui um discurso vazio ou fazendo algo muito distante, até mesmo oposto, ao discurso das suas letras algumas vezes: comofaz?

Poney – Bem, não faz na verdade né? Não sei, eu acho. Costumo brincar que faz parte de um saudável desencantamento do mundo a gente perceber as contradições,  os limites e mesmo os problemas desse meio que a gente gosta. Eu relaciono muito a cena a uma comunidade, apesar de muitas pessoas terem visões diferentes do que seria isso.  De qualquer maneira, ao mesmo tempo que você diz que o hardcore possui essa ligação muito íntima com militância, ativismo e apoio a diversas causas; o hardcore também possui uma ligação muito íntima com um “tentar se disfarçar de uma coisa melhor do que ele é”. Eu acho que a gente tem que ser muito crítico em relação a isso. É muito comun , especialmente quando a gente é mais novo, a gente se encantar. E é legal pra caramba esse momento em que a gente vê este espaço como um espaço onde as coisas podem ser melhores, diferentes e tudo mais. Mas, conforme o tempo vai passando,  a gente vê que os privilégios, as relações de poder e todas as coisas horríveis do mundo lá fora estão nesse nosso microcosmo aqui também. Acho que a nossa, a minha vontade; não vou dizer “tarefa” por que tarefa é horrível, tarefa tem a ver com dever de casa e é tudo coisa ruim. Eu não gosto desses imperativos categóricos, mas eu acho que as minhas vontades e os meus desejos, prefiro colocar em termos de vontades e desejos, são de tornar este espaço melhor. Um espaço mais igualitário; um espaço melhor; um espaço mais justo; um espaço mais aberto; um espaço mais livre. Mesmo que toda essa liberdade, esse sonho seja uma coisa impossível , seja uma coisa inalcançável, uma utopia distante.

Mas é de alguma maneira aquilo que o Galeano fala “essa esperança torta que a faz a gente continuar andando, faz a gente continuar se movendo” e eu acho que tornar este espaço melhor tem tanto a ver com reconhecer as nossas limitações, reconhecer os problemas e tudo mais. Reconhecer que nem tudo é assim e também, de repente, eu acho que como uma postura ética pessoal, tentar ser menos juiz mesmo assim, sabe? Se você leva essa coisa do ativismo, militância e apoio a diversas causas como algo importante pra sua vida, eu acho que isso ai pode muitas vezes estar independente da comunidade hardcore, da comunidade punk. Tem pessoas que nunca escutaram Crass e estão super envolvidas com várias causas e tem gente que, sei lá,escutou discharge a vida toda e é um babaca. Acho que não necessariamente uma coisa está ligada a outra. Eu gosto que estas coisas estejam conectadas, na minha vida elas estão conectadas. Me encanta uma ética que procura estar certa, mas não necessariamente cobrar que as outras pessoas tenham as mesmas posturas que você, eu não gosto essa coisa de cobrança. Como fazer talvez seja, não tô pregando aqui uma espécie de tolerância infinita, eu acho que a gente tem que ser intolerante com várias coisas. A gente tem que ser itolerante com homoofobia, intolerante com cristianismo, intolerante com misoginia intolerante com racismo, intolerante com todas essas cosias. Não é pragente entrar nesse discurso bobo e ingênuo de liberal de “vamos deixar as pessoas para expressarem todas as suas vontades , as suas opiniões”. Não, se a gente tá criando no nosso espaço,  a gente quer que este espaço seja, eu pelo menos, nessa criação, fazer parte dessa comunidade é uma constante criação, eu acho que tem a ver com tornar este espaço o mais acolhedor possível pra todo mundo e ai é claro que a gente não vai tolerar atitudes como estas, atitudes violentas, discursos de ódio e nada do tipo. Mas ao mesmo tmepo o que eu quero dizer é que a gente não tem que entrar numa atitude de trasnformar isso numa espécie de ética policialesca, que também é péssimo na verdade, o que pra mim é mais interessante é tentar que a política revolucionária, ou como você queira chamar, que a política radical seja um etrno desejo nosso, que essa militância ,que esse envolvimento seja um eterno desejo, que a gente se sinta interessado em fazer  esse tipo de trasnformação nas nossas vidas e no mundo a nossa volta. Não necessariamente fazer isso com resignação, como uma obrigação chata ou coisa do tipo. Bem, não sei se o que eu falei tem muito sentido, mas eu gostaria de dizer que todas essas cico perguntas eu talvez responda de um jeito meio confuso, cheio de contradições, mas eu acho que todas essas cinco perguntas são mais perguntas pra levantar questões e debates que pra a gente ter alguma resposta final acho que sua ideia não era muito essa assim.

H – Muitas bandas, além de todo o envolvimento com a “cena” em geral, tornam-se co-responsáveis pela construção das subjetividades dos indivíduos envolvidos com o underground. Como não tornar o discurso de transformação individual presentes nisso, no underground, uma outra prisão para os próprios pensamentos? Visto que isto é bem corriqueiro.

Poney – Bem, não sei. Acho que a gente tem q tentar manter uma eterna postura crítica mesmo, assim, eu acho. De questionar e não cultivar nenhum tipo de idolatria, nenhum tipo de endeusamento de ninguém que esteja nem mesmo na nossa própria comunidade. Nem mesmo a nossa própria cena. A nossa própria comunidade pode virar esse ídolo, esse deus, esse espaço intocável. Eu acho que tudo tá sempre sujeito à crítica, a ser questionado, balançado, e eu acho que manter isso é bastante importate assim. O problema é que, de repente, a própria postura crítica vira esse dogma inabalável e as pessoas acabam se tornado umas chatas também né? Eu acho que tá ai um desafio no balanço dessa coisa, mas eu acho que é bastante comun isso ai que você falou. As pessoas acabam trazendo este discurso de transformação individual como uma prisão pros próprios pensamentos. A ideia de você quebrar os muros dessa prisão sem muros é se manter sempre questionando, sempre aberto, se permitir pensar outras coisas e se questionar. Eu acho que isso tem muito a ver com manter a horizontalidade das relações, manter uma horizontalidade na vida.

Outra coisa que eu acho que é FODA, não é exatamente o que você comentou, mas eu acho que a gente fica muitas vezes no hardcore e no underground atrelado a um discurso de transformação individual que, de repente, vê política como essa coisa estritamente pessoal. Eu acho que é uma visão sencacional, eu acho que é uma das grandes revoluções dos anos 70 pra cá, da contracultura, do feminismo, que é você relacionar política e a vida cotidiana. Que é você extrapolar, você implodir as barreiras entre o que é pessoal e o que é político mas eu acho que é mais interessante quando você consegue combinar isso com uma comunidade. Talvez isso tenha a ver com a próxima pergunta, mas de qualquer maneira: política é você comer alguma coisa diferente, é você fazer um prato diferente, você andar de bicicleta é política também. Mas é que nem tem aquela música do jazus lá “se cada um fizer a sua parte, porra nenhuma vai mudar”. Eu acho que é mais ou menos assim mesmo, a gente precisa de articulações que extrapolem as nossas ações individuais e cotidianas pra de alguma maneiras chacoalhar e mudar determinadas estruturas poder. Porque a gente nã o tá falando só de, bem; é claro que; bom a gente tá sempre falando de; a gente escuta  que nem papagaio louco no hardcore sobre “transformação pessoal” “revolução pessoal” “a revolução começa com você”, mas tudo isso é sencacional. Eu me afilio e assino embaixo de tudo isso e eu realmente acho que a gente tem que começar mudando a gente mesmo, mas só pensar em se mudar não é o suficiente. A gente tem que pensar no mundo que tá a nossa volta.

H – O D.I.Y é, até onde eu sei, uma postura que surge/se desenvolve dentro do  cenário punk, como uma forma de agir para além das estruturas de mercado, e em sua absorção pelo mesmo demônio que bradava combater ultrapassou as fontreiras do nicho no qual surgiu. De uns tempos pra cá, e bota tempo nisso, começa-se a pensar em Do It Together como uma forma de extrapolar o D.I.Y, este é o caminho ou são apenas mais 3 letras para uma camisa cool qualquer?

Poney – Bem, eu nunca vi essa coisa do Do It Yourself como uma coisa solitária não. Eu acho que a gente pode dar diversos significados pra isso e o siginifcado que eu penso sempre que a gente tá falando de Do It Yourself é um sentido coletivo pra isso. Então, de alguma maneira esse Do It Together estaria dentro disso, eu acho. O que eu acho que falta, mas que a ênfase no youself ou no together é a ênfase no do, é a ênfase no fazer, por que eu acho que faça você mesmo tem a ver com fazer e a gente muitas vezes se esquece disso, muitas vezes é chato e tem muitas dificuldades e dá trabalho pra caralho e a gente muitas vezes se lasca. É trabalheira pra caramba, eu acho que falta muita ênfase no fazer. Não que eu queira pregar qualquer tipo de ética do trabalho, nem nada do tipo. Eu acho que essa ética do trabalhador calvinista é a ética que mais se casa bem com o capitalismo. Eu acho que a gente não vai conseguir combater essas coisas estabelecendo um ritmo de bater ponto no underground, ou qualquer coisa do tipo. Transformando isso em profissão, trabalho, cobrança, nem nada do tipo. A ênfase no fazer não necessariamente tem a ver com profissionalizar e transformar em trabalho a nossa produção de contracultura, mas eu acho que tem a ver com produzir. É importante que a gente tenha enfase na produção, em fazer as cosias. Criar. Eu acho que isso falta mais que o sentido de comunidade que pra mim sempre esteve muito forte. E como eu falei, eu  vejo essa cena como uma comunidade. Esse nosso espaço de fazer as coisas junto sempre vi dessa forma.

Assim como é  Do It Youself, mas certas palavras podem receber sentidos diferentes dependendo das pessaos que tão falando. Autonomia, por exemplo; que é um conceito que eu acho que está completamente ligado à essa ideia do faça você mesmo. A autonomia pode ser uma coisa super babaca de virar uma ideia de um quase “auto policionamento” de você de alguma maneira introjetar todas as regras de conduta sociais em você de alguma maneira. E você não precisar de nenhuma tutela exterior. E você mesmo vai se tutelar e seguir de acordo com as normas, o que seria o estágio último da sociedade de controle que o Deleuze fala, esse estágio último, esse policionamento. A não necessidade das instituições disciplinares, a não necessidade da escola, do professor, da prisão, da políca, porque você mesmo faria esse papel de polícia, de professor, de pai de todas essas coisas essas coisas horríveis. Então, autonomia pode ter esse sentido horrível . Mas, pra continuar, pode ter um sentido maravilhoso que é de alguma maneira você criar as suas próprias normas e de alguma maneira não pensar em autonomia como uma independência total. Mas como, na verdade, uma dependência das pessoas daqulea comunidade e de uma criação comunitáira. Bem, eu acho que este exemplo da autonomia tem tudo a ver com o Do It Yourself e é mais ou menos isso, mas é claro. Talvez algumas pessoas entendam do it yourself como uma coisa egoísta, solitária, misantropa talvez. Mas eu sinceramente não vejo dessa forma, nunca vi. Eu vejo como uma criação comunitária o Do It Yourself como uma tentativa de retomar as produções. Colocar as nossas vidas nas nossas mãos, de alguma forma.

Claro que também, ligada àquela pergunta número um, também não é uma coisa de a gente achar que pelo fato dagente estar gravando uns discos ou tocando as nossas músicas a gente tá fazendo uma grande revoluçao e mudando todo o mundo. Acho que talvez no dia que a gnete estiver construindo as nossas próprias guitarras movidas a energia solar ou alguma coisa do tipo a gente pode se achar um pouco mais. Por enquanto, é uma maneira dagente repensar, retomar um pouco mais as nossas vidas na medida que a gente consegue. Sempre , claro que sempre tem estruturas que são muito maiores que a gente e que a gente sempre vai buscando um espaço pra escapar, sempre tem um espaço pra escapar . isso é o que eu acho importante pensar, sempre tem um espaço pra o desvio e a gente vai desviando da maneira que a gente consegue. As vezes, organizar um show, escrever um texto,  é a maneira que a gente consegue se desviar. Mas tem muitas e muitas maneiras . O desvio é justamente aquela coisa que pode fugir a qualquer armadura.

H – Bem, este aqui é um troço que sai apenas na internet e todos já estamos cansados de ler sobre a relação do mercado de música e rolé underground com ela. Maaaaass: hoje as bandas só mostram seu som na internet, shows são divulgados apenas na internet, shows ocorrem apenas para a internet, coletivos; lojas; zines tudo migra para a internet, internet, internet… todo mundo que é grandinho sabe: ela não está ai para todos e não é essa linda terra livre: yay?

Poney – É, pois é: muito complicado isso mesmo. O que você falou é perfeito, a gente é grandinho e a gente sabe de todos os problemas e contradições da internet . A gente é grandinho o suficiente pra saber que a tecnologia não é neutra. Que este discurso de que existe neutralidade nas técnicas é conversa pra boi dormir. Mas ao mesmo tempo eu não acho que seja uma coisa necessariamente fechada. Como você tem o Hipercinza, ou outras pessoas tem outros espaços, a gente consegue de alguma maneira ir torcendo isso. Tá em disputa, assim como existe espaço pro desvio, existe espaço pra disputa. A gente pode tentar transformar isso numa coisa melhor, numa coisa mais bacana. Eu acho que tem prolemas, mas a gente tem coisas bacanas na internet também. A gente tem uma distribuição de música livre, a gente tá trocando essa ideia agora por meio disso. Então, a gente tem que pegar os pontos em que a gente consegue torcer e tentar torcer eles até ranger, mas sempre consciente desses limites. Eu acho que o importante é isso. Eu acho que é não se iludir com essa aparente liberdade, essa aparente liberdade é a falsa propaganda liberal. É exatamente a mesma propaganda que provavelmente vai pregar que existe uma mão invisível  do mercado que ninguém precisa regular e que ela vai se auto regular sozinha e que as coisas vão pender para as melhores trocas e negociações mais justas e tudo mais, que o mercado e o capitalismo financeiro funciona independente de algum tipo de regulação por que ele é a soma das vontades individuais e tudo mais .

Acho que não é o foco aqui, mas eu acho que sses discursos são mito conectados, então a gente ter noção dos limites é alguma coisa. Pra mim particularmente, toda essa coisa do punk e do rock em geral é uma coisa muito corporal assim é muito corpo e é muito biológico assim. O show as vezes pra mim tem muito a ver com essa coisa corporal, depois de um show do Violator eu fico completamente esgotado. Por que pra mim tem a ver com isso, tentar promover uma troca de energia com as pessoas que estão ali que é muito intensa pra mim e que me acaba depois, então, pra mim ainda continua sendo uma coisa muito corporal e o mais importante é a troca que esse nosso subterrâneo promove essa troca de energia. E lá a gente tem troca de ideias também, a gente troca várias coisas. E ai talvez tenha a ver com a primeira pergunta ainda assim, que muitas vezes, sei lá… agora mesmo eu tô lendo a auto biografia do Jhonny Ramone, tava lendo agora ha pouco antes de responder essa entrevista e o cara é o cara mais reacionário do mundo. É o mais babaca americanóide que você possa imaginar, mas ao mesmo tmepo, como diz um amigo meu Daniel, ele falou isso pra mim pouco antes deu começar a ler o livro e isso na verdade foi uma das coisas que me deu vontade de ler o livro. De alguma maneira, mesmo sendo esse republicano babaca ele conseguiu criar um jeito de fazer música que colocou a juventude, os jovens num anseio por liberdade. Então, as vezes as coisas podem não ser tão explicitamente militantes ou tão explicitamente relacionadas com ativismo, mas simplesmente aquele amplificador estourando de distorção pode ter algum gatilho transformador nas nossas vidas e que pode ser potencialmente politizável. Eu acho que as coisas não são necessariamente políticas. Straight edge não é necessariamente político, o hardcore ou várias de nosas posturas; ou o andar de bicicleta. Todas essas coisas não são necessariamente políticas. Mas tudo  é política em potência, se você quiser politizar todas essas coisas. E eu acho que tem espaço pra isso. Eu acho particularmente interessante politizar essas coisas. Me interessa politizar essas coisas, me interessa politizar o underground. Me interessa politizar os nossos shows de punk rock pra 50 pessoas, me interessa politizar o straigh edge e a bicicleta e o veganismo e tudo mais. Tudo isso é política em potência, eu acho.

Agora, de qualquer maneira é isso, o que eu tava falando é isso. Pra mim a coisa ainda é muito corpo, por que aquele som  ensurdecedor explodindo naquelas caixas de som é muito forte pra mim. É apaixonante e tem a ver com desejo e tem a ver com paixão. Todas essas coisas que pra mim são indisçossiáveis. Sentar no computador e ver vídeo do youtube, a coisa não tem a mesma força pra mim e todo esse rolê tem a ver com força, com desejo, com vontade tudo isso, asism, sabe? Pra mim não é só internet. É claro que talvez, sei lá, pra quem nasceu em 94 e tá com 18 anos já e é um outro planeta. Essas pessoas tem uma outra vida, um outro mundo e tudo mais. Se o futuro for só internet e as pessoas estiverem felizes assim, tudo bem. Eu acho que este é um dos sintomas dos shows que a gente toca serem cada vez mais vazios. A gente toca para cada vez menos gente assim por que talvez  as pessoas estejam cada vez menos interessadas naquela coisa orgânica. Eu talvez, apesar de ainda me sentir jovem, já faça parte de uma outra geração. Vou ficar lamentando ou chorando as pitangas por causa disso não, tudo bem. As próximas gerações que tem que decidir como vão continuar as suas produções, eu já decidi a minha.

H – O tempo nos joga dentro de fluxos e refluxos em qualquer atividade continuada que seja, até mesmo no underground: pasmem. Contudo, aparentemente as fileiras de camisas pretas veem minguando a cada mudança que se segue no calendário. O rock doido, o rock du mal está cada vez mais bonito e com menos gente: Como sobreviver dentro do underground e como trazer mais pessoas para dentro dele?

Poney – Bem, eu não tenho pretensão nenhuma de trazer mais pessoas para dentro dele, na verdade. Sendo bem sincero, com aquilo que eu comentei antes, pra mim, um exercício ético interessante é fazer as coisas que eu acredito sem cobrar das outras pessoas que façam a mesma coisa. Ao mesmo tempo eu gostaria de fazer e produzir as coisas que me interessam sem necessariamente  ter uma postura de pastor de tentar trazer mais pessoas pra dentro disso. Acho que esse tipo de pregação é muito comun no underground e tem muito a ver com uma mentalidade cristã. E eu tô completamente interessado em abominar, eliminar e descartar nos mais variados e mais amplos sentidos que uma mentalidade cirstã possa ter. Eu acho que essa ideia de que é preciso que haja mais pessoas em nossas fileiras tem a ver com isso. Se tiver que acabar, acaba. Eu acho que a gente ainda se relaciona, principalmente o hardcore, principalmente o straigh edge, se relaciona muito mal com o fim das coisas e eu sou muito assim sabe? A gente tem essa mentalidade do young ‘till i die, eu vou ser jovem até morrer e acaba criando uma síndrome de peter pan que é horrível. Que nega o nosso corpo, que é uma negação que em algum sentido é meio cristã também. Não, a gente tá envelhecendo, a gente tá morrendo, a gente não vai ser jovem pra sempre e isso é legal também. As coisas tem um fim também, se tiver que acabar; acaba. Eu acho que não tem que ficar forçando. Isso é um exercício pra mim também, eu sou muito assim: eu não gosto que as coisas acabem. Eu sempre penso que tudo vai ser pra sempre e que nós vamos ser uma comunidade linda e bonita e amigos pra sempre curtindo shows de punk no subterrâneo para sempre. E talvez não seja assim. Eu já tô mais perto dos 30 que dos 20, eu faço 27 anos essa semana e talvez esteja meio velho pra fazer outras opções. Eu sei o que é que eu gosto e eu gosto disso, se tiver menos pessoas interessadas, tudo bem.

Minha vida inteira eu sempre me senti muito acostumado a estar deslocado, eu acho que todo mundo que de alguma maneira tem alguma vivência dentro do underground se sentiu deslocado. Eu acho que a gente se encontra no underground justamnete por que a gente não se enconrava em outro lugar nenhum. Nas aulas de educação física, na escola, na igreja. Em nenhum desse lugares a gente se sentia a vontade. Então, o sentimento de deslocamento já tá caminhando com a gente  há muito tempo e se a gente tá envelhecendo a gente tem que aprender a lidar com esse sentimenteo de deslocamento pra valer, até as últimas consequências. Ver o fm da comunidade que a gente faz parte e tudo bem. Agora como você falou, as coisas também tem fluxos, as coisas são muito geracionais, só pra dizer o outro lado. As coisas no underground são bastante geracionais, essa coisa da juventude ainda é muito forte. As pessoas ainda estão aprendendo a envelhecer aqui no Brasil, se você viaja na gringa a gente vê pessoas mais velhas. Em são paulo eu tenho vários amigos que estão mais perto dos 40 que dos 30. Aqui em Brasília a gente tem algumaspessoas também, mas são poucas pessoas.

De qualquer forma, a gente ainda tá vendo as primeiras gerações envelhecendo dentro disso. Essa coisa de juventude pode ser cruel, esse culto a juventude pode ser cruel com quem quer envelhecer se sentindo parte desse subterrâneo. A gente tá aprendendo isso ainda. E ao mesmo tempo que isso é cruel com quem envelhece e desestimula as pessoas a continuarem no rolé, ela faz com que as pessoas saiam muito; que as coisas sempre sejam muito cíclicas. Se você ai na sua cidade tá sentindo que as coisas tem menos gente, pode ser que daqui a outros cinco anos exista um outro novo boom também e ai as coisas diminuam de novo . isso é pra dizer um outro lado, eu não sei e nem quero me colocar na posição de prever alguma coisa. Tudo que eu queria dizer é que se tiver que acabar e as coisas acabarem, tudo bem. Eu é que não quero ter a postura de ser uma espécie de pregador  do underground pra trazer mais gente, se tiver que acabar; acabou. Mas talvez não seja assim, aquela história que a gente sempre escuta o ian macane “enquanto houver um garoto deslocado que pegar uma guitarra sempre vai existir o punk rock” talvez seja verdade e talvez não, não sei. O que eu sei é que eu já não me sinto a vontade em lugar nenhum, eu me sinto a vontade nesse espaço nessa comunidade. Como eu falei, todas essas coisas teem a ver com desejo, com vontades, com paixões e enquanto eu cotinuar sentindo essas coisas eu vou querer continuar a produzir e fazer barulho e escrever sobre como a gente pode tentar fazer desse espaço que a gente vive um lugar melhor e ir tentando fazer desse espaço um lugar melhor. E se tiver que acabar, beleza; o último que sair apague a luz. Sem nenhum apego pela nossa comunidade, sem nenhum apego pela humanidade mesmo.

Valeu ai Eurick, depois você organiza toda essa fala confusa, se quiser, valeu?  Abraço.


Sobre nós mesmxs, parte II

Bem, depois de milênios, alguém mais respondeu isso e finalmente rola de publicar a parte 2 dessa série de mini entrevistas. Caso cê não saiba do que se está falando aqui, dá uma sacada na primeira parte. Pra refrescar a memória, rola de dizer que é uma “investigação sobre nossa relação com nós mesmos dentro disso denominado ‘underground’, amparada pela perspectiva de 5 pessoas envolvidas diretamente com ele”. Essa, a segunda parte, foi feita com Pedro Henrrique Mendigo: o nome do cara tá no meio de coisas como Mahatma Gangue; Cätärro; Revista Tubarão Martelo; Bicicletada Mossoró; Capitão Lixo Discos e sei lá o que mais… praticamente uma celebridade underground mezzo local e, porque não, nacional? Além disso, é um dos pirados mais figuras dos quais eu tenho notícia… se é que isso importa.

Só pra lembrar, quando tudo estiver publicado aqui, esse material vai virar um zine em papel… mas isso ainda vai demorar e muito, provavelmente.

Sem mais delongas: enjoy.

H – O hardcore possui uma ligação muito íntima com ativismo, militância e apoio a diversas causas, contudo não é dificil se virar pros lados e perceber um monte de banda que possui um discurso vazio ou fazendo algo muito distante, até mesmo oposto ao discurso das suas letras algumas vezes: comofaz?

Mendigo –  As pessoas acham que são imparciais. A suposta neutralidade é uma zona de conforto que não exige esforço algum e não coleciona inimigos. Mas quando se é neutro, merece apanhar dos dois lados, é inimigo de todos. Em qualquer situação de injustiça, se o indivíduo se abstém, automaticamente ele está do lado do opressor. Você ocupa lugar no espaço, você é um ser social, está inerente a sua existência que você é um ser político, gerencie você apenas sua vida, uma banda ou uma organização. O não pertencer é uma mentira. Se uma banda possui um discurso vazio, ela é uma banda vazia, se a banda possui um discurso fascista, ela é uma banda fascista, não existe meio termo.

H – Muitas bandas, além de todo o envolvimento com a “cena” em geral, tornam-se co-responsáveis pela construção das subjetividades dos indivíduos envolvidos com o underground. Como não tornar o discurso de transformação individual presentes nisso, no underground, uma outra prisão para os próprios pensamentos? Visto que isto é bem corriqueiro. 

Mendigo – É preciso pensar por si, abandonar o costume de seres de rebanho que somos. A gente convive com os heróis eleitos por nós. Admiramos e copiamos tanto que nos esquecemos de “ser”. O nosso inconsciente observador trabalha tanto em rastrear os outros que copiamos o que nos interessa, censuramos o que não nos interessa e está criada a nossa rasa verdade E assim os chefões da cena investigam a nova geração e desse mesmo modo os pupilos transformam-se em protótipos de seus ídolos. O inimigo ainda está lá fora, criando mais forças a cada dia. Desperdiçar tempo com clonagem mal sucedida pode ser uma prisão perpetua.
H – O D.I.Y é, até onde eu sei, uma postura que surge/se desenvolve dentro do  cenário punk, como uma forma de agir para além das estruturas de mercado, e em sua absorção pelo mesmo demônio que bradava combater ultrapassou as fontreiras do nicho no qual surgiu. De uns tempos pra cá, e bota tempo nisso, começa-se a pensar em Do It Together como uma forma de extrapolar o D.I.Y, este é o caminho ou são apenas mais 3 letras para uma camisa cool qualquer?

Particularmente gosto mais do D.I.Y., pois além de servir para estimular ações coletivas, me dá a ideia de que “eu posso tudo”. Em determinadas situações o esperar pelo parecer e opinião de um grupo faz com que momentos sejam desperdiçados. Situações em que muito pode ser criado através da iniciativa individual. Gosto da ideia de se criar coletivamente e acho que assim o meio torna-se mais forte. Mas a força motriz individual nunca deve ser subestimada e inutilizada.

 H – Bem, este aqui é um troço que sai apenas na internet e todos já estamos cansados de ler sobre a relação do mercado de música e rolé underground com ela. Maaaaass: hoje as bandas só mostram seu som na internet, shows são divulgados apenas na internet, shows ocorrem apenas para a internet, coletivos; lojas; zines tudo migra para a internet, internet, internet… todo mundo que é grandinho sabe: ela não está ai para todos e não é essa linda terra livre: yay?

Mendigo – Que a internet é um veiculo de comunicação formidável, ninguém pode negar. O acesso é livre e gratuito, temos mais é que utilizar mesmo. Mas encará-la como um meio de veiculação das ideias que queremos propagar e não o nosso “meio” em si. Eu particularmente faço backup de tudo o que acho importante para DVDs. Não confio em HD externo e sonho com o fim da internet. Todos os zines que curto tenho encaixotados e catalogados. Quando chegar o dia do fim da internet pode ir a minha casa que te passo alguns. O grande lance é carta e fotocópia.

H – O tempo nos joga dentro de fluxos e refluxos em qualquer atividade continuada que seja, até mesmo no underground: pasmem. Contudo, aparentemente as fileiras de camisas pretas veem minguando a cada mudança que se segue no calendário. O rock doido, o rock du mal está cada vez mais bonito e com menos gente: Como sobreviver dentro do underground e como trazer mais pessoas para dentro dele?

Mendigo – Hiper Cinza, aqui na nossa cidade, Mossoró, estamos cansados de ver nascer e morrer o sraight edge do ano e o thrash maniac mais oitentista do século. Digamos que a nossa gangue tenha 10 anos, nós já fomos 4 vezes maiores do que somos hoje. Houve um período que houveram mais bandas e em nossas gigs conseguíamos juntar 300 pessoas. E se me perguntarem se eu sinto falta disso, eu digo que não. O melhor tempo é hoje. O mundo está mais vazio e o mínimo de conteúdo que ainda existe é repugnante. Esse mesmo mundo vazio e falso é um mundo muito mais sedutor do que o meio punk/underground. Não damos status a ninguém, não somos atraentes e tampouco andamos com as melhores garotas do bairro. As nossas famílias ainda esperam pelo dia que a gente vai abandonar tudo isso e estamos envelhecendo e continuando no mesmo lugar, à vista do mundo. Eu realmente não sei como trazer mais pessoas para dentro disso e não me preocupo com isso. Se o mundo acabar e eu ainda tiver a minha meia dúzia de amigos fazendo as coisas ao meu lado, eu terei ido exatamente a onde sempre quis ir, sem precisar ter movido meus pés um palmo. Onde estou é exatamente onde sempre quis chegar.


Finalmente a resposta, atrasada.

Bem galerê, eu tô devendo essa entrevista aqui a vocês já rola uma data. Ela foi feita em dezembro do ano passado com uma ajuda pra traduzir as perguntas pro espanhol, me parece mais fácil falar klingon que esse idioma, eu estava esperando a brodagem de algumas pessoas pra traduzr as respostas; não rolou. (Aquele papo de “nem na sua própria sombra”)… Ai, foi na base do google translator + portunhol pra ver no que dá… Quem respondeu as perguntas foi o guitarrista, o Makoko; ou alguém mais usou o email dele pra responder ou ele estranhamente fala em terceira pessoa… e eu acho que é a primeira entrevista da banda em português.

Looking for an Answer, Enjoy.

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H – Muitas pessoas aqui no Brasil passaram a conhecer a LFAA apenas após o split com a Ratos de Porão, podem contar rapidamente a trajetória da banda? Sei que ela começou como um projeto solo do Félix ao qual os outros membros foram se agregando aos poucos, mas como foi esse trajeto: do Spplit com o Agathocles até o Eterno Treblinka?

Makoko – Tudo começou com félix por volta de 99, misturando um monte de sons com muita paciência. Mais tarde se uniram Iñaki e Ramón e completaram o trio com uma mistura de ritmos que marcou o caminho do que seria a banda dali em diante, ai começaram as gigs e tour locais. Foram 3 anos com esa formação. Em 2003 começamos a tocar com um baterista humano, Moya, fechando o círculo e compondo o grupo de forma mais coesa, lançando um monte de EPs, LPs, e tocando pela Espanha e Europa. Após o lançamento de “Extincion” rolou uma reformulação na banda quanto à sonoridade e composições, em 2008 se soma ao quarteto Makoko como segunda guitarra, que é como o grupo está até hoje.

H – E daqui pra frente o que podemos esperar, quais respostas ainda estão procurando?

Makoko – Há muitas perguntas que não possuem resposta, ou a resposta é tão dificil de digerir que não se é possivel aceitar como tal. Por que o mundo é controlado por filhos da puta sem moral? É possivel que o planeta onde vivemos suporte o que a raça humana humana está fazendo? O que podemos fazer com nossas vidas fora desse sistema egoísta e autodestrutivo que impera no mundo? Nós vamos seguir com o nosso, fazendo grindcore a margem de toda merda que nos rodeia e colocando nosso grão de areia para que tudo seja menos mal.
H – Depois desse split com a R.D.P podemos vislumbrar um giro pelo Brasil? O que vocês conhecem daqui, não só em termos de música extrema?

Makoko – Claro que já pensamos em ir ao Brasil. Na verdade, antes do Verão, estávamos prestes a ir a um festival em São Paulo, eu acho, e, incidentalmente, fazer alguns shows, mas não fomos capazes de fazê-lo pela falta de tempo fora do trabalho para alguns de nós. É um assunto sobre o qual pensamos muito, e esperamos poder fazê-lo daqui a alguns anos. Temos una relacão foda com a Ratos, (uma gente maravillosa, por certo) e graças a eles temos mais chances de fazer uma tour legal e ainda passar umas férias por ai.

H – E o que, na opinião de vocês, merece ser conhecido ai da Espanha? De música extrema a pratos típicos.

Makoko – Com certeza não é o sistema político, sua cultura conservadora e seu fanatismo religioso. Como en todos lugares há muita gente bcana e coisas pra se fazer, lugeres pra conhecer e lugares pra se esquecer do mundo, e também filhos da puta, lugares horríveis e todo o mal que um país capitalista e corrupto pode ter. Certamente destacaria o gazpacho e pimentas de Navarra.

H – Os materiais de divulgação da LFAA são muito bem produzidos. A capa do “Extincion”, por exemplo, possui uma ilustração muito impactante. Quem cuida da parte gráfica dos materiais da banda e mais especificamente: quem é o ilustrador da capa do Extincion?

Makoko – A parte gráfica é feita por Felix e Makoko (Subliminart e ViolentSatanicGrinders), Mas tudo referente aos desenhos e essas coisas sempre discutimos entre todos, decidimos e os dois fazem. Logo, rolam todas as mudanças imagináveis e ai está. De todo modo, o trabalho de desenho nos últimos anos tem sido bastante fácil, porque contamos com a ajuda de um dos melhores ilustradores da galáxia: Nor Venagruesa (dá uma procurada que você encontra coisa dele na net fácil). É um bom amigo nosso, gallego, mestre nos desenho e em tatuagem e grande pessoa . Foi ele que fez as artes dos nossos últimos trabalhos (Extinción, La Cacería, RDP split 10″, Eterno Treblinka) y le tenemos en nómina, así que se quedará con nosotros hasta que la ley de vagos y maleantes cambie y le tengamos que hacer un contrato por horas. – Nem a pau que eu consegui traduzir isso.

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H – Este blog aqui possui uma pequena atenção sobre o mundo das artes também, li em algum lugar que alguém da banda é designer. Algum outro envolvimento com as artes por parte dos membros do LFAA? As artes podem trazer algumas respostas? lol

Makoko – De fato, Makoko é designer, mas trabalha muito pouco; o menos possível. Desenvolve sua veia artística vez por outra, fazendo alguns pequenos trabalhos pra pagar seus caprichos. Faz parte da direção da editora Violent Satanic Grinders, uma asociação de artistas e meliantes que se dedica à comunicação e expressão cultural underground com um enfoque estritamente DIY. Félix também tem suas inquietudes artísticas, aparte das musicais. Que, como todos os membros do grupo, desenvolve em outros projetos distintos da LFAA, mias ou menos próximos ao rock; por assim dizer.
Eu não sei até que ponto as artes podem trazer respostas. Certamente ela pode ajudar a compreender algumas coisas, para compreender diferentes visões de mundo … Arte estimula a comunicação e o fluxo de cultura e conhecimento e é um poderoso veículo para expressar preocupações reais, geralmente silenciados pelos governos ao redor do mundo. Ao invés de dar respostas, a arte serve para gritar perguntas, todos nós pensamos um pouco e, juntos, podemos encontrar as respostas.
H – A LFAA é 100% vegetariana, com alguns veganos nessa conta, até onde eu sei. Além de abordarem temas como a libertação animal em suas letras, vocês são envolvidos com algum tipo de militância nesse sentido; de propagação do veganismo; ou mesmo em algum outro tipo de militância?

Makoko – Na LFAA somos todos vegetarianos ou veganos. Nós tentamos viver nossas vidas o mais coerentemente possível às nossas ideias, tanto em nosso relacionamento com pessoas, animais e o planeta neste mundo nojento em que todos sofrem.
Só para ter uma vida diferente para a maioria fora do consumismo em massa e a guerra não-questionamento, e salarial generalizada de qualquer forma em um “movimento” contra o estabelecimento. Alguém pergunta: não comer animais? Por quê? E quando você explica os seus motivos, pelo menos a pessoa pensa sobre isso, e às vezes, como no meu caso há alguns anos atrás, muda os seus hábitos e contribui para a onda crescente de pessoas ao redor do mundo que questionam a forma de vida que tentam nos impor governos e mercados.
Espalhar a mensagem de libertação animal através de grindcore é a forma como nós cinco fazemos a nossa parte em prol do respeito pelos direitos dos animais. Felix tem seu selo Under the Knive, que distribui livros e músicas sobre os direitos animais e veganismo, mas nenhum de nós pertence a nenhuma associação, somos todos autônomos na luta por um mundo melhor …

 H – Ao assumir uma postura assim, de propagação do vegetarianismo, como banda; como conjunto, qual o papel que as letras e a manutenção dessa postura possuem no trabalho de vocês e qual o impacto gerado por isso no entorno da LFAA?

Makoko – As letras são pelo menos 50% do que é LFAA. E a maioria delas fala e denuncia o abuso de animais e o especismo generalizado entre os homens. É uma marca registrada da banda intencionalmente tomada desde o início, e que continua a ser a principal razão e a “inspiração” para os textos. Para alguns de nós, como eu disse antes, é a maneira que nós encontramos para nos mobilizar pelos animais para além dos nossos hábitos alimentares, por assim dizer. E isso funciona. Em pequena escala, sim, mas nas imediações de LFAA há 3 casos de pessoas que pararam de comer animais e mudaram alguns de seus costumes em prol da igualdade animal, então eu tenho certeza que tem ajudado mais pessoas a pensar nisso e tomar uma decisão.

H – O que influencia vocês para a construção das músicas e perpetuação do trabalho com a LFAA? Digo: quais músicas, quais bandas, quais coisas além disso entram na hora de produzir novos materiais?

Makoko – Ao compor as músicas temos muito claro o que fazemos. Com LFAA o que fazemos é grindcore. Nem mais nem menos, grindcore, puro e simples, ou o que entendemos como tal. Todos nós temos outros projetos musicais no qual se desenvolvem outros interesses. Mas, quanto à LFAA, acho que o que nos inspira é a música que foi feita nos anos 80 e 90. Repulsion, Napalm Death, Autopsy, Brutal Truth, Terrorizer, Carcass…(ai sim, mô véi!)

H – Como vocês enxergam e o que podem dizer do cenário underground espanhol, da inserção da LFAA nele e fora do mesmo e das demais bandas vindas dai?

Makoko – A cena espanhola… eu não sei o que dizer. Temos alguns bons grupos e festivais, e rolés de alto nível, mas geralmente é uma merda. Custa muito para organizar as coisas, há pouco envolvimento dos grupos e do público … Hoje os grupos estão mais preocupados com as suas fotos que com a sua música, e por isso são os grupos que duram 2 ou 3 anos, coisa de moda.

No caso da LFAA, há um tempo temos visto que as pessoas fora do nosso círculo habitual estão se interessando mais que antes (tanto na  Espanha quanto em outros países), somos chamados a  festivais em lugares que nunca ouvimos falar… Foi muito importante nesse sentido o lançamento com a Relapse, abriu novas portas. Continuamos a crescer tanto quanto possível, até cair.

H – Por se tratar de uma banda que não canta em inglês, vocês acham que possuem um tratamento diferenciado dentro do cenário underground? Já li em mais de uma entrevista com vocês pessoas perguntando por qual razão vocês simplesmente não cantam em inglês para se tornarem “mais comerciais”.

Makoko – Para o bem ou para o mal somos de onde somos. E nos comunicamos na língua que aprendemos quando crianças. Não acredito que o idioma em que cantas tem a ver com o seu desenvolvimento como um grupo e menos ainda num estilo de música onde não se entende nada do que você diz. Quem está interessado no que dizem os gritos lê o encarte, em espanhol e em Inglês. Então, não importa de onde o grupo é, terá o impacto que deveria ter com a sua música, independente da linguagem que usamos. Nós não nos propomos a não escrever em Inglês ou em Euskara por qualquer razão,  simplesmente fazemos da melhor maniera que sabemos, em castelhano.

H – Obrigado por se disponibilizar a responder a esta entrevista, nós do Hipercinza (leia-se: eu) gostamos bastante do trabalho da banda e esperamos poder curtir um show algum dia, sem ser pelo youtube.

Makoko – Obrigado pela entrevista e pela oportunidade de apresentar a nossa posição e continuar a expandir o poder da LFAA.
Estejam todos preparados deste lado do Atlântico, que um dia cairá a tempestade LFAA no Brasil, e não haverá um guarda-chuva para todos …
Para mais informações e ruído: looking_for_an_answer@hotmail.com


Tecnológico, caótico e catastrófico.

Tá certo, quem siliga (muito) nisso aqui deve estar médio decepcionad@ por conta de uma entrevista prometida que nunca saiu, só dá pra dizer que a entrevista tá feita… nunca foi traduzida pela nossa fazenda de duendes escravos equipe de tradução. Enfim, como as coisas não podem parar por aqui, segue na lata um papo com um dos membros duma das bandas mais impressionantes surgidas por aqui pelo nordeste recentemente.  Já postei coisa sobre e você provavelmente, a menos que esteja errad@ no rolé, já deve ter ouvido e gostado bastante. Falei com o ser humano da direita, conhecido como “Ivo” entre seus pares.

H – Você já teve outras bandas com outras pegadas bem diferentes, bandas até que conseguiram um certo “destaque”. De onde veio a energia (maligna) pra montar a Robot Wars e como foi esse rolé?
Ivo – A primeira banda de minha vida foi com Silvio (o outro membro da Robot Wars) há uns 12 anos atrás e já desde aquela época curtíamos som mais agressivo, rápido e tal. Esse tipo de som sempre foi algo presente na vida da gente e com a Robot Wars foi algo que veio a tona naturalmente, seria estranho se saísse outra coisa na verdade.

H – Robot Wars só me faz pensar em livro do Aasimov, de onde veio esse nome?

Ivo – Ótima referência. Na verdade eu passei os últimos dois anos fazendo mestrado em sociologia e me focando basicamente em ética e tecnologia. Daí quando pensamos na banda eu fiquei meio obcecado em tratar dessa temática que eu acho super relevante e que tem um clima caótico, catastrófico. Fiquei na cabeça que tinha que ser algum nome que tivesse a ver com técnica e de repente acabei lembrando do robot wars do Shikari que já é uma banda que gostamos muito e meio que funcionou perfeitamente pra o que a gente queria.

H – E como vocês decidiram essa pegada “Neo-Crustiana” que a banda possui? Muito incomun aparecer algo pelas terras tupiniquins com todo esse cheiro de From Ashes Rise e Ictus.

Ivo – Isso veio naturalmente também, nem escutamos tanto essa coisa de neocrust ou todas as bandas que são referência pra isso, mas juntar essas melodias tensas com aquela pegada oldschool é algo que simplesmente faz muito sentido pra gente, desde o primeiro ensaio fluiu dessa forma. Pessoalmente eu sempre gostei muito disso, na época do triste fim (de rosilene) eu fazia a maior parte das bases e acabava também sempre mesclando esses climas que pra mim são obviamente complementares. E Silvio tem muita facilidade pra criar essas melodias na guitarra, acho que ele ja aprendeu a tocar meio que explorando esse caminho e acaba sendo algo óbvio quando a gente se junta pra tocar.

H – A Robot Wars fez 2 rolés tocando no meio da rua por esses dias, tava até conversando com o mendigo sobre o quanto disso foi falta de opção e o quanto foi opção; fala um pouco sobre o perrengue e a experiência de ter organizado as duas edições de “Clandestino” ai.

H – Esse lance de fazer rolé na rua, de graça e tal, foi um dos grandes responsáveis por esvaziar os shows ou acostumar as pessoas a quererem entrar pagando menos nos shows por aqui, isso faz com que muita gente aqui por Recife não veja mais com bons olhos organizar show na rua. Vocês também acham delicado organizar rolé de graça pelo mundo?

Ivo – Vou responder as duas perguntas de uma só vez. Na verdade a robot wars tocou na edição número 1 do clandestino, mas tanto eu quanto silvio fizemos parte da organização dos dois. O Clandestino na verdade é um rolê que já acontecia nos anos 80/90 através dos punk locais. Faziam gato da energia, improvisavam o som nas praças e faziam eles mesmos. Pra nós essa idéia surgiu justamente porque sentimos falta de uma cena autêntica na cidade, algo maior que balada, do que só música como pano de fundo pras pessoas encherem a cara. Fora isso, a cidade está extremamente carente de lugares pra tocar, ainda mais esse tipo de som. Daí decidimos que teriamos que tomar uma decisão mais drástica. Essa coisa de tocar na rua não é novidade e ultimamente tem varias cidades que estao fazendo isso por diversos motivos. Os nossos são esses: falta de espaço, ódio a balada, e necessidade de uma interação maior entre pessoas que querem realmente construir algo autentico.

Essa questão que você levantou sobre os shows na rua diminuírem o público de shows pagos não é nem de longe uma realidade local. As pessoas não apóiam os pequenos shows simplesmente porque não se importam. Vão pros shows pra ficar na porta e parece que dá no mesmo. Não pensam em termos de “rede” onde poderiam usufruir mutuamente do mesmo esquema.
Daí fizemos um favor na verdade, acabamos com as portas, com os ingressos, com os editais, só vai pro clandestino quem realmente está interessado de alguma forma naquela expressão, ou fica curioso quando vê na rua.

H – Há algum pouco tempo atrás Aracaju era, de certa forma, referência no que se trata a rolé aqui pelo NE e depois meio que deu uma sumida, como andam as coisas por ai, lugar pra show, público e tudo mais?

Ivo – Creio que isso já foi respondido na última resposta. Ainda assim, não sei se Aracaju já foi essa referência a que você se refere. De qualquer forma as coisas com certeza ja estiveram melhores, o cenário punk parece estar em coma ou correndo atrás do próprio rabo. Sinto que isto está prestes a mudar um pouco, novas energias viajam pela cidade, espero estar certo.

H -Sei que a banda é composta por apenas dois integrantes, como é o processo das coisas numa banda pequena assim? Não quero dizer que esteja havendo uma onda de bandas novas com poucos integrantes, mas surgiu um bocado de coisa boa com 2 pessoas recentemente tipo Onfalos, Test, Robot Wars… pra citar os que eu lembro logo. Vocês notam algo assim também? É uma manifestação do Zeitgeist?

Ivo – Pra gente é só um reflexo de uma cidade com poucas pessoas com afinidade o suficiente. A banda é um duo primeiramente porque não tinhamos ninguem em mente pra fazer esse tipo de som e com ideias parecidas com as nossas. Depois o formato acabou funcionando nos ensaios e tomando formas interessantes na medida que a gente precisava fazer as musicas pensando de outra forma para preencher o buraco.  Deu certo e resolvemos manter, acho que funciona melhor, é bem mais fácil de conciliar ensaios, gravações, viagens e etc. Acho que um dia ainda terei uma “One Man Band”.

H – Quais são as preocupações na hora de compor, o que precisa haver numa música e numa letra da Robot Wars? Falo tanto dos padrões, dos clichês e das coisas que estamos cansad@s de ver em bandas desse naipe de rock quanto das emanações mais sinceras da alma.

Ivo – Não pensamos tanto nisso. Musicalmente a banda funciona desse jeito e ponto, não é algo muito planejado. Nesse primeiro material quase todas as letras falam de tecnologia como ja havia frisado antes. É algo que se tornou um tema para a banda nesse momento e algo que a gente gosta muito de trazer a tona. Não é obrigação que falemos apenas sobre isso, as ultimas musicas que fizemos falam muito sobre morte, curiosamente. Não estabelecemos uma regra a respeito disso.

H – Dizer que “todo mundo” tá se coçando pra pogar ao som de vocês, em casa ou num pico qualquer, deve ser chover no molhado, então: quandé que sai algo novo ou que vai rolar um giro da Robot Wars por aqui?

Ivo – Próximo material é um 7” com o Deaf Kids do rio de janeiro. Ja estamos nos preparando pra gravar esses dias e não sabemos ainda quando ficará pronto. Depois já partiremos pra gravar mais músicas para outro material, tentaremos lançar o máximo de coisa que pudermos este ano.
Sobre uma possível tour estamos analisando as datas, tivemos diversos convites de varias cidades e o formato da banda facilita. É só uma questão de conciliar a vida falsa (trampo, burocracia, tempo) com a vida real. Mais vai rolar em breve.

H – As bandas das quais você fez parte, por um envolvimento seu muito íntimo com a coisa, possuiam uma pegada vegan forte, há espaço para isso na Robot Wars?

Ivo – Sim! Somos vegans, vivemos isso e falamos sobre isso praticamente todos os dias. Isso também está nas letras sendo que talvez de maneira menos óbvia do que em outras bandas.

H- Fugindo um pouco, só pra quase encerrar, do papo sobre a banda, como tá o Om Shanti? E, fazendo uma ponte com a questão dos espaços e da organização das coisas por ai, quando rola uma barulheira pró veganismo por lá?

Ivo – Pra quem não sabe o Om Shanti é um restaurante vegano que eu e Dani temos aqui em aracaju. Ta indo muito bem, estamos trabalhando com veganismo e vivendo dele, nos dedicando diariamente a isso. É algo cansativo e ao mesmo tempo muito gratificante porque podemos alcançar muita gente da cidade com essa proposta. O fluxo até agora tá legal, contrariando o que as pessoas diziam quando a gente decidiu entrar nessa: “a cidade ainda não está preparada para uma proposta tão “radical”. Estamos provando o contrário e descobrindo muita gente de diversas faixas etárias e gostos diversos que se interessam pelo veganismo ou ao menos por uma alimentação sem carnes.
Ainda não tem nenhum barulho por lá por conta da vizinhança, precisamos conservar bem essa relação, mas o “barulho pró-veganismo” tem acontecido de diversas formas, mesmo que nem sempre com punk rock.

H – Valeu pela atenção e disposição em responder esse bagulho aqui, o espaço é seu: fale mal de quem quiser agora.

Ivo – Essa resposta é sempre a mais clichê, mas só gostaríamos de agradecer o interesse pela entrevista e em divulgar a banda. Esperamos em breve poder passar por aí! abraços!