Sobre nós mesmxs, Parte III

Finalmente voltamos a publicar mais uma das mini entrevistas dessa série “Sobre nós mesm@s” e tamo na agulha pra mais algumas… do mesmo jeito de sempre. Se você não sabe muito bem do que se está sendo falado aqui, pode-se dizer que é um projeto de investigação sobre isso onde estamos tod@s metid@s… em doses moderadas e sob a perspectiva de pessoas também de dentro do lance; com a pretensão de virar um zine em papel pra ser rodado por ai e tudo mais. Caso você queira dar uma sacada nas outras entrevistas da série: dá um siligue aqui e aqui.

Quem empresta a voz e as ideias dessa vez é o Poney: que é da Violator, da Cidade Cemitério, mantém um lance chamado Distrito Vegetal; um blog pra quem é VEGetariANO se inteirar de um monte de coisas e conhecer lugares bacanas desses Brésyilzão; especialmente do DF; e sei lá mais o quê. Essa entrevista foi mandada pro Poney no começo de 2012, respondida na metade do ano e só tá sendo publicada agora em 2013… o Ultraman Tiga quis assim, sério. Antes tarde do que mais tarde, certo? Queria aqui pedir desculpas ao cara pela demora em publicar o lance, enfim. Algumas coisas podem parecer sem nexo, mas foi assim mesmo que ele respondeu : ]

Sem mais delongas.

Então, sou o Poney respondendo aqui o Hipercinza 5 perguntas, foi mal pela demora. Então beleza, vamo ai.

H – O hardcore possui uma ligação muito íntima com ativismo, militância e apoio a diversas causas, contudo não é dificil se virar pros lados e perceber um monte de banda que possui um discurso vazio ou fazendo algo muito distante, até mesmo oposto, ao discurso das suas letras algumas vezes: comofaz?

Poney – Bem, não faz na verdade né? Não sei, eu acho. Costumo brincar que faz parte de um saudável desencantamento do mundo a gente perceber as contradições,  os limites e mesmo os problemas desse meio que a gente gosta. Eu relaciono muito a cena a uma comunidade, apesar de muitas pessoas terem visões diferentes do que seria isso.  De qualquer maneira, ao mesmo tempo que você diz que o hardcore possui essa ligação muito íntima com militância, ativismo e apoio a diversas causas; o hardcore também possui uma ligação muito íntima com um “tentar se disfarçar de uma coisa melhor do que ele é”. Eu acho que a gente tem que ser muito crítico em relação a isso. É muito comun , especialmente quando a gente é mais novo, a gente se encantar. E é legal pra caramba esse momento em que a gente vê este espaço como um espaço onde as coisas podem ser melhores, diferentes e tudo mais. Mas, conforme o tempo vai passando,  a gente vê que os privilégios, as relações de poder e todas as coisas horríveis do mundo lá fora estão nesse nosso microcosmo aqui também. Acho que a nossa, a minha vontade; não vou dizer “tarefa” por que tarefa é horrível, tarefa tem a ver com dever de casa e é tudo coisa ruim. Eu não gosto desses imperativos categóricos, mas eu acho que as minhas vontades e os meus desejos, prefiro colocar em termos de vontades e desejos, são de tornar este espaço melhor. Um espaço mais igualitário; um espaço melhor; um espaço mais justo; um espaço mais aberto; um espaço mais livre. Mesmo que toda essa liberdade, esse sonho seja uma coisa impossível , seja uma coisa inalcançável, uma utopia distante.

Mas é de alguma maneira aquilo que o Galeano fala “essa esperança torta que a faz a gente continuar andando, faz a gente continuar se movendo” e eu acho que tornar este espaço melhor tem tanto a ver com reconhecer as nossas limitações, reconhecer os problemas e tudo mais. Reconhecer que nem tudo é assim e também, de repente, eu acho que como uma postura ética pessoal, tentar ser menos juiz mesmo assim, sabe? Se você leva essa coisa do ativismo, militância e apoio a diversas causas como algo importante pra sua vida, eu acho que isso ai pode muitas vezes estar independente da comunidade hardcore, da comunidade punk. Tem pessoas que nunca escutaram Crass e estão super envolvidas com várias causas e tem gente que, sei lá,escutou discharge a vida toda e é um babaca. Acho que não necessariamente uma coisa está ligada a outra. Eu gosto que estas coisas estejam conectadas, na minha vida elas estão conectadas. Me encanta uma ética que procura estar certa, mas não necessariamente cobrar que as outras pessoas tenham as mesmas posturas que você, eu não gosto essa coisa de cobrança. Como fazer talvez seja, não tô pregando aqui uma espécie de tolerância infinita, eu acho que a gente tem que ser intolerante com várias coisas. A gente tem que ser itolerante com homoofobia, intolerante com cristianismo, intolerante com misoginia intolerante com racismo, intolerante com todas essas cosias. Não é pragente entrar nesse discurso bobo e ingênuo de liberal de “vamos deixar as pessoas para expressarem todas as suas vontades , as suas opiniões”. Não, se a gente tá criando no nosso espaço,  a gente quer que este espaço seja, eu pelo menos, nessa criação, fazer parte dessa comunidade é uma constante criação, eu acho que tem a ver com tornar este espaço o mais acolhedor possível pra todo mundo e ai é claro que a gente não vai tolerar atitudes como estas, atitudes violentas, discursos de ódio e nada do tipo. Mas ao mesmo tmepo o que eu quero dizer é que a gente não tem que entrar numa atitude de trasnformar isso numa espécie de ética policialesca, que também é péssimo na verdade, o que pra mim é mais interessante é tentar que a política revolucionária, ou como você queira chamar, que a política radical seja um etrno desejo nosso, que essa militância ,que esse envolvimento seja um eterno desejo, que a gente se sinta interessado em fazer  esse tipo de trasnformação nas nossas vidas e no mundo a nossa volta. Não necessariamente fazer isso com resignação, como uma obrigação chata ou coisa do tipo. Bem, não sei se o que eu falei tem muito sentido, mas eu gostaria de dizer que todas essas cico perguntas eu talvez responda de um jeito meio confuso, cheio de contradições, mas eu acho que todas essas cinco perguntas são mais perguntas pra levantar questões e debates que pra a gente ter alguma resposta final acho que sua ideia não era muito essa assim.

H – Muitas bandas, além de todo o envolvimento com a “cena” em geral, tornam-se co-responsáveis pela construção das subjetividades dos indivíduos envolvidos com o underground. Como não tornar o discurso de transformação individual presentes nisso, no underground, uma outra prisão para os próprios pensamentos? Visto que isto é bem corriqueiro.

Poney – Bem, não sei. Acho que a gente tem q tentar manter uma eterna postura crítica mesmo, assim, eu acho. De questionar e não cultivar nenhum tipo de idolatria, nenhum tipo de endeusamento de ninguém que esteja nem mesmo na nossa própria comunidade. Nem mesmo a nossa própria cena. A nossa própria comunidade pode virar esse ídolo, esse deus, esse espaço intocável. Eu acho que tudo tá sempre sujeito à crítica, a ser questionado, balançado, e eu acho que manter isso é bastante importate assim. O problema é que, de repente, a própria postura crítica vira esse dogma inabalável e as pessoas acabam se tornado umas chatas também né? Eu acho que tá ai um desafio no balanço dessa coisa, mas eu acho que é bastante comun isso ai que você falou. As pessoas acabam trazendo este discurso de transformação individual como uma prisão pros próprios pensamentos. A ideia de você quebrar os muros dessa prisão sem muros é se manter sempre questionando, sempre aberto, se permitir pensar outras coisas e se questionar. Eu acho que isso tem muito a ver com manter a horizontalidade das relações, manter uma horizontalidade na vida.

Outra coisa que eu acho que é FODA, não é exatamente o que você comentou, mas eu acho que a gente fica muitas vezes no hardcore e no underground atrelado a um discurso de transformação individual que, de repente, vê política como essa coisa estritamente pessoal. Eu acho que é uma visão sencacional, eu acho que é uma das grandes revoluções dos anos 70 pra cá, da contracultura, do feminismo, que é você relacionar política e a vida cotidiana. Que é você extrapolar, você implodir as barreiras entre o que é pessoal e o que é político mas eu acho que é mais interessante quando você consegue combinar isso com uma comunidade. Talvez isso tenha a ver com a próxima pergunta, mas de qualquer maneira: política é você comer alguma coisa diferente, é você fazer um prato diferente, você andar de bicicleta é política também. Mas é que nem tem aquela música do jazus lá “se cada um fizer a sua parte, porra nenhuma vai mudar”. Eu acho que é mais ou menos assim mesmo, a gente precisa de articulações que extrapolem as nossas ações individuais e cotidianas pra de alguma maneiras chacoalhar e mudar determinadas estruturas poder. Porque a gente nã o tá falando só de, bem; é claro que; bom a gente tá sempre falando de; a gente escuta  que nem papagaio louco no hardcore sobre “transformação pessoal” “revolução pessoal” “a revolução começa com você”, mas tudo isso é sencacional. Eu me afilio e assino embaixo de tudo isso e eu realmente acho que a gente tem que começar mudando a gente mesmo, mas só pensar em se mudar não é o suficiente. A gente tem que pensar no mundo que tá a nossa volta.

H – O D.I.Y é, até onde eu sei, uma postura que surge/se desenvolve dentro do  cenário punk, como uma forma de agir para além das estruturas de mercado, e em sua absorção pelo mesmo demônio que bradava combater ultrapassou as fontreiras do nicho no qual surgiu. De uns tempos pra cá, e bota tempo nisso, começa-se a pensar em Do It Together como uma forma de extrapolar o D.I.Y, este é o caminho ou são apenas mais 3 letras para uma camisa cool qualquer?

Poney – Bem, eu nunca vi essa coisa do Do It Yourself como uma coisa solitária não. Eu acho que a gente pode dar diversos significados pra isso e o siginifcado que eu penso sempre que a gente tá falando de Do It Yourself é um sentido coletivo pra isso. Então, de alguma maneira esse Do It Together estaria dentro disso, eu acho. O que eu acho que falta, mas que a ênfase no youself ou no together é a ênfase no do, é a ênfase no fazer, por que eu acho que faça você mesmo tem a ver com fazer e a gente muitas vezes se esquece disso, muitas vezes é chato e tem muitas dificuldades e dá trabalho pra caralho e a gente muitas vezes se lasca. É trabalheira pra caramba, eu acho que falta muita ênfase no fazer. Não que eu queira pregar qualquer tipo de ética do trabalho, nem nada do tipo. Eu acho que essa ética do trabalhador calvinista é a ética que mais se casa bem com o capitalismo. Eu acho que a gente não vai conseguir combater essas coisas estabelecendo um ritmo de bater ponto no underground, ou qualquer coisa do tipo. Transformando isso em profissão, trabalho, cobrança, nem nada do tipo. A ênfase no fazer não necessariamente tem a ver com profissionalizar e transformar em trabalho a nossa produção de contracultura, mas eu acho que tem a ver com produzir. É importante que a gente tenha enfase na produção, em fazer as cosias. Criar. Eu acho que isso falta mais que o sentido de comunidade que pra mim sempre esteve muito forte. E como eu falei, eu  vejo essa cena como uma comunidade. Esse nosso espaço de fazer as coisas junto sempre vi dessa forma.

Assim como é  Do It Youself, mas certas palavras podem receber sentidos diferentes dependendo das pessaos que tão falando. Autonomia, por exemplo; que é um conceito que eu acho que está completamente ligado à essa ideia do faça você mesmo. A autonomia pode ser uma coisa super babaca de virar uma ideia de um quase “auto policionamento” de você de alguma maneira introjetar todas as regras de conduta sociais em você de alguma maneira. E você não precisar de nenhuma tutela exterior. E você mesmo vai se tutelar e seguir de acordo com as normas, o que seria o estágio último da sociedade de controle que o Deleuze fala, esse estágio último, esse policionamento. A não necessidade das instituições disciplinares, a não necessidade da escola, do professor, da prisão, da políca, porque você mesmo faria esse papel de polícia, de professor, de pai de todas essas coisas essas coisas horríveis. Então, autonomia pode ter esse sentido horrível . Mas, pra continuar, pode ter um sentido maravilhoso que é de alguma maneira você criar as suas próprias normas e de alguma maneira não pensar em autonomia como uma independência total. Mas como, na verdade, uma dependência das pessoas daqulea comunidade e de uma criação comunitáira. Bem, eu acho que este exemplo da autonomia tem tudo a ver com o Do It Yourself e é mais ou menos isso, mas é claro. Talvez algumas pessoas entendam do it yourself como uma coisa egoísta, solitária, misantropa talvez. Mas eu sinceramente não vejo dessa forma, nunca vi. Eu vejo como uma criação comunitária o Do It Yourself como uma tentativa de retomar as produções. Colocar as nossas vidas nas nossas mãos, de alguma forma.

Claro que também, ligada àquela pergunta número um, também não é uma coisa de a gente achar que pelo fato dagente estar gravando uns discos ou tocando as nossas músicas a gente tá fazendo uma grande revoluçao e mudando todo o mundo. Acho que talvez no dia que a gnete estiver construindo as nossas próprias guitarras movidas a energia solar ou alguma coisa do tipo a gente pode se achar um pouco mais. Por enquanto, é uma maneira dagente repensar, retomar um pouco mais as nossas vidas na medida que a gente consegue. Sempre , claro que sempre tem estruturas que são muito maiores que a gente e que a gente sempre vai buscando um espaço pra escapar, sempre tem um espaço pra escapar . isso é o que eu acho importante pensar, sempre tem um espaço pra o desvio e a gente vai desviando da maneira que a gente consegue. As vezes, organizar um show, escrever um texto,  é a maneira que a gente consegue se desviar. Mas tem muitas e muitas maneiras . O desvio é justamente aquela coisa que pode fugir a qualquer armadura.

H – Bem, este aqui é um troço que sai apenas na internet e todos já estamos cansados de ler sobre a relação do mercado de música e rolé underground com ela. Maaaaass: hoje as bandas só mostram seu som na internet, shows são divulgados apenas na internet, shows ocorrem apenas para a internet, coletivos; lojas; zines tudo migra para a internet, internet, internet… todo mundo que é grandinho sabe: ela não está ai para todos e não é essa linda terra livre: yay?

Poney – É, pois é: muito complicado isso mesmo. O que você falou é perfeito, a gente é grandinho e a gente sabe de todos os problemas e contradições da internet . A gente é grandinho o suficiente pra saber que a tecnologia não é neutra. Que este discurso de que existe neutralidade nas técnicas é conversa pra boi dormir. Mas ao mesmo tempo eu não acho que seja uma coisa necessariamente fechada. Como você tem o Hipercinza, ou outras pessoas tem outros espaços, a gente consegue de alguma maneira ir torcendo isso. Tá em disputa, assim como existe espaço pro desvio, existe espaço pra disputa. A gente pode tentar transformar isso numa coisa melhor, numa coisa mais bacana. Eu acho que tem prolemas, mas a gente tem coisas bacanas na internet também. A gente tem uma distribuição de música livre, a gente tá trocando essa ideia agora por meio disso. Então, a gente tem que pegar os pontos em que a gente consegue torcer e tentar torcer eles até ranger, mas sempre consciente desses limites. Eu acho que o importante é isso. Eu acho que é não se iludir com essa aparente liberdade, essa aparente liberdade é a falsa propaganda liberal. É exatamente a mesma propaganda que provavelmente vai pregar que existe uma mão invisível  do mercado que ninguém precisa regular e que ela vai se auto regular sozinha e que as coisas vão pender para as melhores trocas e negociações mais justas e tudo mais, que o mercado e o capitalismo financeiro funciona independente de algum tipo de regulação por que ele é a soma das vontades individuais e tudo mais .

Acho que não é o foco aqui, mas eu acho que sses discursos são mito conectados, então a gente ter noção dos limites é alguma coisa. Pra mim particularmente, toda essa coisa do punk e do rock em geral é uma coisa muito corporal assim é muito corpo e é muito biológico assim. O show as vezes pra mim tem muito a ver com essa coisa corporal, depois de um show do Violator eu fico completamente esgotado. Por que pra mim tem a ver com isso, tentar promover uma troca de energia com as pessoas que estão ali que é muito intensa pra mim e que me acaba depois, então, pra mim ainda continua sendo uma coisa muito corporal e o mais importante é a troca que esse nosso subterrâneo promove essa troca de energia. E lá a gente tem troca de ideias também, a gente troca várias coisas. E ai talvez tenha a ver com a primeira pergunta ainda assim, que muitas vezes, sei lá… agora mesmo eu tô lendo a auto biografia do Jhonny Ramone, tava lendo agora ha pouco antes de responder essa entrevista e o cara é o cara mais reacionário do mundo. É o mais babaca americanóide que você possa imaginar, mas ao mesmo tmepo, como diz um amigo meu Daniel, ele falou isso pra mim pouco antes deu começar a ler o livro e isso na verdade foi uma das coisas que me deu vontade de ler o livro. De alguma maneira, mesmo sendo esse republicano babaca ele conseguiu criar um jeito de fazer música que colocou a juventude, os jovens num anseio por liberdade. Então, as vezes as coisas podem não ser tão explicitamente militantes ou tão explicitamente relacionadas com ativismo, mas simplesmente aquele amplificador estourando de distorção pode ter algum gatilho transformador nas nossas vidas e que pode ser potencialmente politizável. Eu acho que as coisas não são necessariamente políticas. Straight edge não é necessariamente político, o hardcore ou várias de nosas posturas; ou o andar de bicicleta. Todas essas coisas não são necessariamente políticas. Mas tudo  é política em potência, se você quiser politizar todas essas coisas. E eu acho que tem espaço pra isso. Eu acho particularmente interessante politizar essas coisas. Me interessa politizar essas coisas, me interessa politizar o underground. Me interessa politizar os nossos shows de punk rock pra 50 pessoas, me interessa politizar o straigh edge e a bicicleta e o veganismo e tudo mais. Tudo isso é política em potência, eu acho.

Agora, de qualquer maneira é isso, o que eu tava falando é isso. Pra mim a coisa ainda é muito corpo, por que aquele som  ensurdecedor explodindo naquelas caixas de som é muito forte pra mim. É apaixonante e tem a ver com desejo e tem a ver com paixão. Todas essas coisas que pra mim são indisçossiáveis. Sentar no computador e ver vídeo do youtube, a coisa não tem a mesma força pra mim e todo esse rolê tem a ver com força, com desejo, com vontade tudo isso, asism, sabe? Pra mim não é só internet. É claro que talvez, sei lá, pra quem nasceu em 94 e tá com 18 anos já e é um outro planeta. Essas pessoas tem uma outra vida, um outro mundo e tudo mais. Se o futuro for só internet e as pessoas estiverem felizes assim, tudo bem. Eu acho que este é um dos sintomas dos shows que a gente toca serem cada vez mais vazios. A gente toca para cada vez menos gente assim por que talvez  as pessoas estejam cada vez menos interessadas naquela coisa orgânica. Eu talvez, apesar de ainda me sentir jovem, já faça parte de uma outra geração. Vou ficar lamentando ou chorando as pitangas por causa disso não, tudo bem. As próximas gerações que tem que decidir como vão continuar as suas produções, eu já decidi a minha.

H – O tempo nos joga dentro de fluxos e refluxos em qualquer atividade continuada que seja, até mesmo no underground: pasmem. Contudo, aparentemente as fileiras de camisas pretas veem minguando a cada mudança que se segue no calendário. O rock doido, o rock du mal está cada vez mais bonito e com menos gente: Como sobreviver dentro do underground e como trazer mais pessoas para dentro dele?

Poney – Bem, eu não tenho pretensão nenhuma de trazer mais pessoas para dentro dele, na verdade. Sendo bem sincero, com aquilo que eu comentei antes, pra mim, um exercício ético interessante é fazer as coisas que eu acredito sem cobrar das outras pessoas que façam a mesma coisa. Ao mesmo tempo eu gostaria de fazer e produzir as coisas que me interessam sem necessariamente  ter uma postura de pastor de tentar trazer mais pessoas pra dentro disso. Acho que esse tipo de pregação é muito comun no underground e tem muito a ver com uma mentalidade cristã. E eu tô completamente interessado em abominar, eliminar e descartar nos mais variados e mais amplos sentidos que uma mentalidade cirstã possa ter. Eu acho que essa ideia de que é preciso que haja mais pessoas em nossas fileiras tem a ver com isso. Se tiver que acabar, acaba. Eu acho que a gente ainda se relaciona, principalmente o hardcore, principalmente o straigh edge, se relaciona muito mal com o fim das coisas e eu sou muito assim sabe? A gente tem essa mentalidade do young ‘till i die, eu vou ser jovem até morrer e acaba criando uma síndrome de peter pan que é horrível. Que nega o nosso corpo, que é uma negação que em algum sentido é meio cristã também. Não, a gente tá envelhecendo, a gente tá morrendo, a gente não vai ser jovem pra sempre e isso é legal também. As coisas tem um fim também, se tiver que acabar; acaba. Eu acho que não tem que ficar forçando. Isso é um exercício pra mim também, eu sou muito assim: eu não gosto que as coisas acabem. Eu sempre penso que tudo vai ser pra sempre e que nós vamos ser uma comunidade linda e bonita e amigos pra sempre curtindo shows de punk no subterrâneo para sempre. E talvez não seja assim. Eu já tô mais perto dos 30 que dos 20, eu faço 27 anos essa semana e talvez esteja meio velho pra fazer outras opções. Eu sei o que é que eu gosto e eu gosto disso, se tiver menos pessoas interessadas, tudo bem.

Minha vida inteira eu sempre me senti muito acostumado a estar deslocado, eu acho que todo mundo que de alguma maneira tem alguma vivência dentro do underground se sentiu deslocado. Eu acho que a gente se encontra no underground justamnete por que a gente não se enconrava em outro lugar nenhum. Nas aulas de educação física, na escola, na igreja. Em nenhum desse lugares a gente se sentia a vontade. Então, o sentimento de deslocamento já tá caminhando com a gente  há muito tempo e se a gente tá envelhecendo a gente tem que aprender a lidar com esse sentimenteo de deslocamento pra valer, até as últimas consequências. Ver o fm da comunidade que a gente faz parte e tudo bem. Agora como você falou, as coisas também tem fluxos, as coisas são muito geracionais, só pra dizer o outro lado. As coisas no underground são bastante geracionais, essa coisa da juventude ainda é muito forte. As pessoas ainda estão aprendendo a envelhecer aqui no Brasil, se você viaja na gringa a gente vê pessoas mais velhas. Em são paulo eu tenho vários amigos que estão mais perto dos 40 que dos 30. Aqui em Brasília a gente tem algumaspessoas também, mas são poucas pessoas.

De qualquer forma, a gente ainda tá vendo as primeiras gerações envelhecendo dentro disso. Essa coisa de juventude pode ser cruel, esse culto a juventude pode ser cruel com quem quer envelhecer se sentindo parte desse subterrâneo. A gente tá aprendendo isso ainda. E ao mesmo tempo que isso é cruel com quem envelhece e desestimula as pessoas a continuarem no rolé, ela faz com que as pessoas saiam muito; que as coisas sempre sejam muito cíclicas. Se você ai na sua cidade tá sentindo que as coisas tem menos gente, pode ser que daqui a outros cinco anos exista um outro novo boom também e ai as coisas diminuam de novo . isso é pra dizer um outro lado, eu não sei e nem quero me colocar na posição de prever alguma coisa. Tudo que eu queria dizer é que se tiver que acabar e as coisas acabarem, tudo bem. Eu é que não quero ter a postura de ser uma espécie de pregador  do underground pra trazer mais gente, se tiver que acabar; acabou. Mas talvez não seja assim, aquela história que a gente sempre escuta o ian macane “enquanto houver um garoto deslocado que pegar uma guitarra sempre vai existir o punk rock” talvez seja verdade e talvez não, não sei. O que eu sei é que eu já não me sinto a vontade em lugar nenhum, eu me sinto a vontade nesse espaço nessa comunidade. Como eu falei, todas essas coisas teem a ver com desejo, com vontades, com paixões e enquanto eu cotinuar sentindo essas coisas eu vou querer continuar a produzir e fazer barulho e escrever sobre como a gente pode tentar fazer desse espaço que a gente vive um lugar melhor e ir tentando fazer desse espaço um lugar melhor. E se tiver que acabar, beleza; o último que sair apague a luz. Sem nenhum apego pela nossa comunidade, sem nenhum apego pela humanidade mesmo.

Valeu ai Eurick, depois você organiza toda essa fala confusa, se quiser, valeu?  Abraço.


Sobre nós mesmxs, parte II

Bem, depois de milênios, alguém mais respondeu isso e finalmente rola de publicar a parte 2 dessa série de mini entrevistas. Caso cê não saiba do que se está falando aqui, dá uma sacada na primeira parte. Pra refrescar a memória, rola de dizer que é uma “investigação sobre nossa relação com nós mesmos dentro disso denominado ‘underground’, amparada pela perspectiva de 5 pessoas envolvidas diretamente com ele”. Essa, a segunda parte, foi feita com Pedro Henrrique Mendigo: o nome do cara tá no meio de coisas como Mahatma Gangue; Cätärro; Revista Tubarão Martelo; Bicicletada Mossoró; Capitão Lixo Discos e sei lá o que mais… praticamente uma celebridade underground mezzo local e, porque não, nacional? Além disso, é um dos pirados mais figuras dos quais eu tenho notícia… se é que isso importa.

Só pra lembrar, quando tudo estiver publicado aqui, esse material vai virar um zine em papel… mas isso ainda vai demorar e muito, provavelmente.

Sem mais delongas: enjoy.

H – O hardcore possui uma ligação muito íntima com ativismo, militância e apoio a diversas causas, contudo não é dificil se virar pros lados e perceber um monte de banda que possui um discurso vazio ou fazendo algo muito distante, até mesmo oposto ao discurso das suas letras algumas vezes: comofaz?

Mendigo –  As pessoas acham que são imparciais. A suposta neutralidade é uma zona de conforto que não exige esforço algum e não coleciona inimigos. Mas quando se é neutro, merece apanhar dos dois lados, é inimigo de todos. Em qualquer situação de injustiça, se o indivíduo se abstém, automaticamente ele está do lado do opressor. Você ocupa lugar no espaço, você é um ser social, está inerente a sua existência que você é um ser político, gerencie você apenas sua vida, uma banda ou uma organização. O não pertencer é uma mentira. Se uma banda possui um discurso vazio, ela é uma banda vazia, se a banda possui um discurso fascista, ela é uma banda fascista, não existe meio termo.

H – Muitas bandas, além de todo o envolvimento com a “cena” em geral, tornam-se co-responsáveis pela construção das subjetividades dos indivíduos envolvidos com o underground. Como não tornar o discurso de transformação individual presentes nisso, no underground, uma outra prisão para os próprios pensamentos? Visto que isto é bem corriqueiro. 

Mendigo – É preciso pensar por si, abandonar o costume de seres de rebanho que somos. A gente convive com os heróis eleitos por nós. Admiramos e copiamos tanto que nos esquecemos de “ser”. O nosso inconsciente observador trabalha tanto em rastrear os outros que copiamos o que nos interessa, censuramos o que não nos interessa e está criada a nossa rasa verdade E assim os chefões da cena investigam a nova geração e desse mesmo modo os pupilos transformam-se em protótipos de seus ídolos. O inimigo ainda está lá fora, criando mais forças a cada dia. Desperdiçar tempo com clonagem mal sucedida pode ser uma prisão perpetua.
H – O D.I.Y é, até onde eu sei, uma postura que surge/se desenvolve dentro do  cenário punk, como uma forma de agir para além das estruturas de mercado, e em sua absorção pelo mesmo demônio que bradava combater ultrapassou as fontreiras do nicho no qual surgiu. De uns tempos pra cá, e bota tempo nisso, começa-se a pensar em Do It Together como uma forma de extrapolar o D.I.Y, este é o caminho ou são apenas mais 3 letras para uma camisa cool qualquer?

Particularmente gosto mais do D.I.Y., pois além de servir para estimular ações coletivas, me dá a ideia de que “eu posso tudo”. Em determinadas situações o esperar pelo parecer e opinião de um grupo faz com que momentos sejam desperdiçados. Situações em que muito pode ser criado através da iniciativa individual. Gosto da ideia de se criar coletivamente e acho que assim o meio torna-se mais forte. Mas a força motriz individual nunca deve ser subestimada e inutilizada.

 H – Bem, este aqui é um troço que sai apenas na internet e todos já estamos cansados de ler sobre a relação do mercado de música e rolé underground com ela. Maaaaass: hoje as bandas só mostram seu som na internet, shows são divulgados apenas na internet, shows ocorrem apenas para a internet, coletivos; lojas; zines tudo migra para a internet, internet, internet… todo mundo que é grandinho sabe: ela não está ai para todos e não é essa linda terra livre: yay?

Mendigo – Que a internet é um veiculo de comunicação formidável, ninguém pode negar. O acesso é livre e gratuito, temos mais é que utilizar mesmo. Mas encará-la como um meio de veiculação das ideias que queremos propagar e não o nosso “meio” em si. Eu particularmente faço backup de tudo o que acho importante para DVDs. Não confio em HD externo e sonho com o fim da internet. Todos os zines que curto tenho encaixotados e catalogados. Quando chegar o dia do fim da internet pode ir a minha casa que te passo alguns. O grande lance é carta e fotocópia.

H – O tempo nos joga dentro de fluxos e refluxos em qualquer atividade continuada que seja, até mesmo no underground: pasmem. Contudo, aparentemente as fileiras de camisas pretas veem minguando a cada mudança que se segue no calendário. O rock doido, o rock du mal está cada vez mais bonito e com menos gente: Como sobreviver dentro do underground e como trazer mais pessoas para dentro dele?

Mendigo – Hiper Cinza, aqui na nossa cidade, Mossoró, estamos cansados de ver nascer e morrer o sraight edge do ano e o thrash maniac mais oitentista do século. Digamos que a nossa gangue tenha 10 anos, nós já fomos 4 vezes maiores do que somos hoje. Houve um período que houveram mais bandas e em nossas gigs conseguíamos juntar 300 pessoas. E se me perguntarem se eu sinto falta disso, eu digo que não. O melhor tempo é hoje. O mundo está mais vazio e o mínimo de conteúdo que ainda existe é repugnante. Esse mesmo mundo vazio e falso é um mundo muito mais sedutor do que o meio punk/underground. Não damos status a ninguém, não somos atraentes e tampouco andamos com as melhores garotas do bairro. As nossas famílias ainda esperam pelo dia que a gente vai abandonar tudo isso e estamos envelhecendo e continuando no mesmo lugar, à vista do mundo. Eu realmente não sei como trazer mais pessoas para dentro disso e não me preocupo com isso. Se o mundo acabar e eu ainda tiver a minha meia dúzia de amigos fazendo as coisas ao meu lado, eu terei ido exatamente a onde sempre quis ir, sem precisar ter movido meus pés um palmo. Onde estou é exatamente onde sempre quis chegar.


Alerta Punk N2, mais charmoso encorpado.

Mal passaram algumas horas e já tá na internet o segundo número do Alerta Punk, pra você ver como algumas pessoas ainda são dedicadas e eficientes nesse mundo. A ideia do cara que tá colando isso tudo na rede, o Ilustríssimo empresário noiseático do Estranhas Ocupações, é continuar fazendo esse mermo trampo com todos os números que possui, depois fazer o mesmo com outras velharias do tipo e soltar tudo no Punks is Hippies, um blog fuderoso no qual você encontra fanzines de putaqueopariu de baixo e além mar; vale muito dar uma sacada. Tamo todo mundo aqui esperando a bagaça inteira estar na net pra ver no que dá, se e pá rola um post maior sobre fanzines nisso aqui depois. Acho foda, principalmente por que não lembro de ver nenhum fanzinezinho de papel, xerocadinho e tal, nos últimos tempos… : /

Nessa edição, anterior à invenção dos talheres: rola coisa da Holanda; Inglaterrespanha; bomba nuclear; roupa rasgada; fim do mundo; punk desgraça; rock doido; barulheira e mais uma aparição do charmoso, e bem aplicado, hidrocor na capa. A merda é só que não é em PDF… mandando um conversor pro brother em 5, 4, 3…

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Alerta Punk N1 – 1983

O indivíduo, que um dia integrou a anarco-hype-trOO chamada Fogo Morto, e que agora tá por trás do selo Noise Piracional “Estranhas Ocupações“, responsável por agitar pracaralho esse rolé (noise) ultimamente por aqui (quem é descolado sabe do que eu tô falando)  Soltou na internet essa pedrada, inclusivemente teve todo o trampo de digitalizar a parada e tudo mais.

 

Zine velho, antigo e praticamente medieval: útil pra você sacar como eram as coisas quando ninguém imaginava o que era um trending topic, ninguém fazia porra de blog pra falar de rock e o Dimitri ainda não havia descoberto que era sexta feira. Rola entrevista com a Olho Seco, letra de banda e o escambau; coisa fina e djigna. A parte mais fuderosa ainda é que segundo as palavras do próprio patrão lá do Estranhas Ocupações, o plano é continuar digitalizando o resto da coleção de zine antigo que ele tem. Puta atitude fuderosa meo! Tamo aqui no aguardo pra ir compartilhando a parada com vocês também.

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Bad Vibe: aparentemente morgou o show da Ação Direta.

Tá certo, milhões de shows já foram cancelados mundo afora e todo mundo sabe disso. Porém, é impossível não ficar meio decepcionado, puto ou qualquer coisa do tipo quando algo assim acontece.

Ai, morgou o rolé com a Ação Direta… pelo menos tão rolando os fortes boatos, e gente como eu, que pira na banda, ficou na merda. Já conseguia ouvir as desgraceiras tipo Deuses Dogmas e Violência ou A Natureza Humana sendo tocadas, quiçá coisas mais velhas ainda pro delírio desse povo roqueiro. Desde 2004 eu acho que eles não pisam aqui e um bocadinho de gente tava esperando esse rolé, guardando o troco do pão pra poder pagar o ingresso e planejando qual roupa ia vestir no dia… tudo morgou, mó malz. Agora é ficar em casa triste, ouvindo CD e tentando lembrar daquele show no Pan no Rock bola pra frente.

Tá osso de encontrar pico pra organizar show por aqui, passagem é cara e ajudar a banda com uma grana é foda quase sempre. É muita garra fazer o rock brabo rodar atualmente, mas quando não foi? Quem entra nisso deveria saber da tromba, principalmente se acha que vai tirar algum com isso. Não lembro dum show que eu tenha me metido na organização pra ter dado lucro e na maioria deles a dor de cabeça é tremenda. Não estou falando isso dos responsáveis pro esse show ai, de estar na parada atrás de grana; provavelmente são grandinhos demais pra isso… Porém, não é o primeiro rolé cancelado pela mesma galhera e todo mundo já está olhando torto sempre que aparece o nome do Antezine-se na história… alguém ai curte Expose Your Hate?

Sei lá, nem me importa muito, se é azar, cagalhonice da produção ou as duas coisas juntas. Sei que o rolé miou e é mó malz. Todo mundo espera no mínimo é uma notinha da produção em algum lugar, o espaço aqui tá aberto. É o mínimo que eu posso fazer depois de apedrejá-los lol


Segunda Contrasessão – Esporro

Um rolé bacana ai que o Elo Coletivo, do qual a parte mais descolada da minha pessoa faz parte, tá fazendo junto com o coletivo HR; de um bando de perdedor sem futuro ai. Quem foi na primeira tá por dentro que vai ser massinha… Leve uma grana pra tentar descolar o livro e ganhe uns cds ai de brinde. Depois ainda rola aquele rango vegan supimpa, provavelmente feito por este que vos escreve inclusivemente.

É rocha?